José Luis García Rúa: “Acabar com o sistema é a solução”

Filósofo, estudioso em Latim, ensaísta e poeta, José Luis García Rúa (Gijón, 1923) mantém aos 85 anos o ativismo e o espírito de luta que fez dele um símbolo para muitos cidadãos inconformistas e críticos, que vêem neste anarquista um santo laico e professor de várias gerações. Filho de um trabalhador da CNT morto na Guerra Civil, García Rúa foi trabalhador da construção e mineiro, antes de estudar na Universidade de Oviedo e depois ir para Salamanca. Também esteve quatro anos como leitor nas universidades alemãs de Munique e Mainz nos anos 50, antes de voltar para Gijón, onde montou uma Academia que foi uma incomum escola de aprendizagem cultural e política para os trabalhadores, e um centro de resistência antifranquista onde se formaram muitos líderes de esquerda nas Astúrias. Após seis anos de atividade, aquela universidade popular gratuita, onde não havia títulos ou hierarquias entre alunos e professores, foi fechada pela polícia em 1965. Perseguido pelas autoridades educacionais de Franco e pela Opus Dei, foi expulso da Universidade de Oviedo em 1963, quando lecionava na Escola de Comércio. Foi secretário-geral da CNT (1986-1990) e diretor do periódico do sindicato anarquista. Aposentou-se como catedrático de filosofia na Universidade de Granada, e semana passada foi objeto, nesta cidade, de uma homenagem que contou com a presença de alguns companheiros libertários proeminentes, incluindo seu amigo, o filósofo Agustín García Calvo, companheiro na luta contra Franco em Salamanca.
Pergunta > Se pode retirar da vida política um ativista anarquista como você?
Resposta < Não me aposentei da “política”, se por ela se entende atividade social e anti-política. Posso fazer menos porque o meu corpo não me permite, mas de não fazer algo nesse campo apenas a morte me impedirá.
Pergunta > Você considera que suas ações tenham tido repercussão, que seus princípios tenham sido escutados?
Resposta < Minhas ações foram as que foram. Creio que alguns as entenderam, em um grau ou outros as seguiram; outras passaram despercebidas e outros a esqueceram ou passaram-na a uma reserva interior que, algum dia, pode ser reativada.
Pergunta > Por que não ecoou socialmente a mensagem libertária? Que papel tem desempenhado os meios de comunicação na imagem do anarquismo?
Resposta < A missão da transição foi matar o movimento libertário. Serviu-se e continua a servir de instrumentos políticos, de “direita” ou de “esquerda” para intervi-lo, desviá-lo e integrá-lo. Foi tal tarefa parte prioritária da tarefa geral que o regime de transição se propôs: de esvaziar sistematicamente a mente dos cidadãos. Os meios de comunicação, como parte integrante do sistema, jogaram e ainda jogam, nos dois campos, com um papel primordial.
Pergunta > A transição está então mal contada?
Resposta < A transição foi uma grande armadilha política. As contradições são vistas agora. Há uma grande hipocrisia, uma linguagem cheia de silêncios. Basta seguir hoje a trajetória de Zapatero, de contradição em contradição. Tudo é resultado dessa falta de clareza. O artigo 8º da Constituição autoriza o Exército a intervir, prova de que esta não é uma democracia. Em uma democracia o povo é soberano e este regime sustenta isso na Constituição. É soberano o povo ou o exército? Houve alterações? Isso é óbvio, mas também houve durante o regime de Franco. O franquismo de 40 não é o mesmo que o de 60 ou 70. Houve mudanças na forma, não de substância.
Pergunta > O 15-M abre portas aos princípios libertários? Que conexões têm o movimento com o anarquismo?
Resposta < O 15-M é hoje, um movimento ainda confuso. Reúne uma boa quantidade de pessoas entre aqueles que manifestam desejo de reconstruir o capitalismo e de pedir ao sistema que abram as portas para encontrar algum buraco de melhoria da democracia – é o caso do movimento Attac – e outra boa quantidade de pessoas que está convencida de que, do sistema, não se pode esperar mais do que refazer os passos já trilhados para alcançar o mesmo fim. Essa parte está convencida de que não deve acabar como terminou o Maio de 68.
Pergunta > Que futuro tem o 15-M e no que vai dar tudo isso?
Resposta < Esse futuro depende de que essa segunda parte das pessoas que estamos falando consiga convencer a parte restante de que se tem que começar tudo de novo e de uma maneira oposta à forma de como veio.
Pergunta > Com a crise do capitalismo foram cumpridas as previsões anunciadas há anos pelos anarquistas?
Resposta < As crises do capitalismo são progressivamente mais graves. A própria estrutura do capitalismo conduz a ela. Os desequilíbrios entre os setores dos meios de produção e os meios de consumo se agravam progressivamente, em prejuízo ao povo. Por um longo tempo vem sendo assim. A experiência vem se confirmando.
Pergunta > A solução para este mundo em crise passa pela solidariedade social e pelas redes sociais?
Resposta < A solução para este mundo de crise passa por uma mudança qualitativa que supõe o desaparecimento do sistema.
Pergunta > Falta uma cultura em liberdade ao povo para poder enfrentar a crise?
Resposta < O que significa “enfrentar a crise”? A crise se torna o sistema. Enfrentar a crise é, portanto, enfrentar o sistema. Se confrontar a crise significa tentar fazer riqueza onde não existe nenhuma ou ter coragem para suportar o que vier, que tem sido muito, e será muito mais, então o que se pede é assumir um novo sistema de escravidão.
Pergunta > Como se sente um histórico do pensamento libertário diante da situação atual?
Resposta < Em uma enorme tensão se a solução for acessar esse regime de nova escravidão, e em uma grande esperança de que, ao final, as condições subjetivas e objetivas possam culminar no desaparecimento de um sistema de injustiças para dar lugar à vida real das pessoas.
Pergunta > Ainda é Granada, nas palavras de García Lorca, a cidade onde se encontra a pior burguesia do mundo?
Resposta < Todas as burguesias são más enquanto tais, algumas de forma mais respeitosa e outras mais brandas e carentes de qualquer traquejo social.
Fonte: Ideal.es
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