entre ser isto ou ser outra coisa qualquer..

O que quer o anarquista? A liberdade —a liberdade para si e
para os outros, para a humanidade inteira. Quer estar livre da
influência ou da pressão das ficções sociais; quer ser livre tal qual
nasceu e apareceu no mundo, que é como em justiça deve ser; e
quer essa liberdade para si e para todos os mais. Nem todos podem
ser iguais perante a Natureza: uns nascem altos, outros baixos; uns
fortes, outros fracos; uns mais inteligentes, outros menos…

Mas todos podem ser iguais daí em diante; só as ficções sociais o evitam.
Essas ficções sociais é que era preciso destruir.
Era preciso destrui-las… Mas não me escapou uma coisa:
era preciso destrui-las mas em proveito da liberdade, e tendo sempre
em vista a criação da sociedade livre. Porque isso de destruir as
ficções sociais tanto pode ser para criar liberdade, ou preparar o
caminho da liberdade, como para estabelecer outras ficções sociais
diferentes, igualmente más porque igualmente ficções. Aqui é que
era preciso cuidado. Era preciso acertar com um processo de acção,
qualquer que fosse a sua violência ou a sua não-violência (porque
contra as injustiças sociais tudo era legítimo), pelo qual se
contribuísse para destruir as ficções sociais sem, ao mesmo tempo,
estorvar a criação da liberdade futura; criando já mesmo, caso fosse
possível, alguma coisa da liberdade futura.


Fernando Pessoa em O Banqueiro Anarquista

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