A música fora da grelha

Foi por reflectir sobre os desafios causados pelo avanços nas tecnologias alimentadas pela computação algorítmica que me vi instado a procurar cada vez mais a minha música através da prática do inefável e do não linear.

Encontro paralelo entre o que está a acontecer com o momento em que a introdução da fotografia nos fez rever o papel da pintura. Tínhamos criado esta nova ferramenta, cada vez mais eficaz na representação concreta da realidade, substituindo, em muitos aspectos, práticas artísticas como o retrato, o desenho científico, a pintura de paisagens, etc. A fotografia tornou possível captar o mundo de uma maneira muito próxima do real o que fez com que esta representação deixasse, genericmante, de ser um desafio artístico tão interessante.

Vemos nascer, entre outros, movimentos como, o impressionismo, o surrealismo, o pontilhismo ou o abstracionismo. Se a máquina é tão boa a captar de forma objectiva o mundo então o gesto na tela liberta-se de certas convenções e regras, e propõe uma nova estrutura de subjectivação, uma que traz à tona outros pontos de vista.

Para mim, é claro que o momento que vivemos agora interpela-nos a fazer algo de semelhante com a música. Quando a computação se torna capaz de replicar fórmulas de maneira tão eficaz, a eficácia deixa de ser o nosso indicador. A atracção está na procura pelo que escapa à grelha, à métrica ou ao arco narrativo. Na procura pelo que é incontornavelmente vivo, singular e sui generis.

📷 @veramarmelo

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