A música sem fim de Tiago Sousa,
20 anos a libertar-nos a imaginação
Nas últimas duas décadas, o pianista construiu um lugar musical único. Música sem fronteiras, a expandir-se lentamente em interacção com o tempo. Sustained Tones é o início de um novo capítulo.
Mário Lopes

📷 Vera Marmelo



Já ao fundo há linhas a atravessar faiscantes a parede, quais raios de luz cósmica. Também podem ser fios atravessados por corrente eléctrica, ou cordas de piano em tensão, captadas no preciso momento em que o martelo das teclas as percute. É uma imagem simples, mas muito eficaz. No escuro da sala, funciona quase como efeito subliminar, camada sensorial a potenciar o que ali acontece ao longo de uma hora. Há um piano vertical e há um órgão, há pedais de efeitos acoplados ao corpo do primeiro. E há um músico, Tiago Sousa, que conduz a viagem entre planares cósmicos, drones encantatórios e pinceladas impressionistas em som. O público segue-o em silêncio atento, o silêncio de quem submerge no mundo musical ali criado e não quer abandonar aquele encantamento.
Era noite de sábado, dia 24 de Janeiro, e estávamos no Bota, no Largo de Santa Bárbara, em Lisboa, espaço que, desde 2020, se vem consolidando como relevante núcleo cultural associativo, abrindo
portas a concertos, promovendo residências, acolhendo artes visuais e performativas, funcionando também como um ponto de encontro comunitário — e bem sabemos como precisamos deles na cidade violentamente gentrificada.
Tiago Sousa subia ao palco para apresentar Sustained Tones Vol. 1, ponto de partida de um novo capítulo do caminho que começou a trilhar em 2022, quando iniciou a série Organic Music Tapes, na qual foi explorando a ideia de música orgânica, como o título indica. Duplo sentido: orgânico no sentido de se desenvolver como organismo vivo, tocado pelas circunstâncias do ambiente natural; orgânico por marcar, também, o início de um trabalho com os sons amplos do órgão, quer o eléctrico da era moderna, quer o de tubos, secular.
Este ano, Tiago Sousa sobe ao palco, também, para assinalar 20 anos de carreira. Um percurso em que o pianista se foi destacando como um dos nossos criadores mais singulares, habitando um espaço entre lugares, equidistante da música erudita, da contemporânea, do jazz, do minimalismo, tão à vontade num festival de música exploratória como o Out.Fest, no Barreiro, como na sintonia da Antena 2, em espaços institucionais respeitados como a Culturgest ou nas pequenas associações que permitem à arte independente continuar a respirar e florescer. Apesar da evolução e das transformações que a sua música foi vivendo e das dezenas de lançamentos, já reconhecemos como seu esse território entre lugares que foi definindo ao longo dos anos.
Um piano no quarto
“Como artista e tendo em conta a minha visão do mundo, faz muito sentido esta noção de comunidade, a noção de que construímos em conjunto.” Estamos agora na semana seguinte ao concerto de presentação e Tiago Sousa conversa com o Ípsilon desde o centro da Europa, Bruxelas, cidade para onde seguiu para uma visita familiar depois da actuação no Bota. É da escolha deste espaço para lançar Sustained Tones Vol. 1 — tal como as Organic Music Tapes, uma edição em cassete e em formato digital da Sucata Tapes, chancela da Discrepant Records —, que nos fala Tiago Sousa. No final deste mês irá apresentar-se em concertos pelo país, vários deles em salas similares na sua fundação e propósito: Casa da Cultura, Setúbal (28 de Fevereiro), Armazém das Artes, Alcobaça (6 de Março), Bang Venue, Torres Vedras (7 de Março), Amparo 99, Porto (8 de Março), Cooperativa Mula, Barreiro (12 de Março) e Cossoul, Lisboa (22 de Março).
“Muitos destes espaços dependem de um certo voluntarismo, de uma atitude cultural militante que é sempre inspiradora.” Tiago Sousa vê como “missão” utilizar a sua posição enquanto músico para servir de porta de entrada, levando o seu público a conhecer aqueles espaços e a sua forma de agir, promovendo encontro e interacção. “São sempre espaços que, muitas vezes, não têm a mesma atenção mediática, vivem numa sombra, e é muito pelo passa-palavra que nasce depois este tipo de relações comunitárias”, nota. “Sem dúvida que esta forma de produção cultural, esta interacção e esta interdependência são muito importantes, até para os dias que se avizinham. São um vínculo que pode deixar uma semente para sabermos lidar com as adversidades que o futuro nos pode apresentar.” Foi num espaço assim que, de resto, o vimos pela primeira vez.
Estávamos em 2006 e o pianista apresentava Crepúsculo, o seu primeiro álbum a solo, na associação Crew Hassan, então sedeada nas Portas de Santo Antão, em Lisboa. Era a revelação de algo, uma atmosfera outonal meditativa em que se reconheciam traços dos impressionistas franceses, Debussy e Satie, melancolia activa enquadrada nos ritmos do quotidiano — as peças do álbum eram intercaladas com gravações de sons do dia-a-dia nas ruas da cidade.
Tendo acompanhado o percurso pontuado por álbuns como Insónia (2009), Walden’s Pond Monk (2011), Oh Sweet Solitude (2020) ou Ripples on the Surface (2022), marcado por espectáculos feitos disco como Coro das Vontades (2015), sobressalto de emancipação cidadã perante a violência e devastação humana e social dos anos da troika, pode parecer agora surpreendente que, no início, o piano fosse uma adenda. Tiago Sousa fazia parte de bandas rock experimentais, os Goodbye Toulouse e os Jesus, The Misunderstood, que integravam a Merzbau, uma editora muito activa nessa primeira década deste século (ali se estrearam, por exemplo, os Lobster, B Fachada ou Benjamim, na altura Walter Benjamin). “No início era um side project. Eu tinha as bandas e era lá que depositava toda a minha energia”, conta. Acontece que ele, que tivera o piano como instrument primordial até aos 12 anos, abandonando-o depois em favor de guitarras e baixos eléctricos, recebe aos 22, em 2005, um presente da avó. Professora de piano, oferece um ao neto. Momento decisivo. “Ter aquele instrumento plantado no quarto foi a semente de tudo.” Gravou algum material, só pelo prazer de perceber o que poderia fazer nascer, e imaginou que poderia reunir-se com músicos diferentes, explorar outras ideias musicais. “Mas não imaginei, de todo, que fosse aquele o caminho que iria seguir.” Entretanto, a singularidade da sua música começa a fazer caminhos para ele inesperados.
“Comecei a ter atenção de pessoas fora dos meus círculos de conhecimentos e amizades. Entretanto, há alguém na Alemanha a querer fazer um disco comigo [Insónia, pela Humming Conch], esse disco vai parar aos ouvidos de um editor independente nos Estados Unidos e fazemos dois discos [Walden’s Pond Monk e Samsara, pela Immune Records]. Vou tendo mais atenção mediática, de repente a Antena 2 está a passar música minha. Eram tudo coisas improváveis na minha cabeça”, conta.
O caminho abria-se definitivamente. A música foi-se desenvolvendo, do trabalho com bateria e
clarinete em Insónia, na intersecção entre música neoclássica, folk exploratória e um minimalismo caído em expansão psicadélica, ao piano solo de Samsara e Oh Sweet Solitude, do trabalho sobre textos e poemas recolhidos para Coro das Vontades à forma como a filosofia de Henry Da-
vid Thoreau, antimaterialista, ecologista e transcendentalista, preservada no livro Walden (1854), resultou em Walden’s Pond Monk. Mais recentemente, chegou a supracitada série Organic Music Tapes e este Sustained Tones em que junta órgão e tape loops ao piano, trabalhando a ideia
de repetição do minimalismo (Terry Riley, Steve Reich) e a imagem, aplicada à música, de um organismo como “coisa viva, sempre em mutação, sempre em construção”.
Como um jardineiro
Presente, desde o início, a recusa do academismo e da imagem do virtuoso, tão associada à prática pianística. Quando regressou ao piano, de resto, tinha como premissa uma recusa: “Eu não quero ser um pianista”. Aprecia sobremaneira muitos dos resultados desse ideal virtuoso, mas vinha de outro lugar, “do punk e do rock independente dos anos 1980 e 1990”, e queria manter “uma certa
fidelidade à sua atitude e ao seu carácter autodidacta”.
Tiago Sousa toca todos os dias, obceca-se com as novas pesquisas e explorações que vai encetando, mas interessa-lhe, continua a interessar-lhe abordar o piano de uma forma “espontânea e natural”. É algo que se entrelaça com a sua ética e a sua política enquanto cidadão, indissociável da acção enquanto músico na recusa de elitismos académicos e hierarquias, na vontade de fazer da sua música, na composição, na forma como a recebemos enquanto ouvintes, na forma como é apresentada, um espaço de encontro e de emancipação.
“A arte é política sem ter de ser obrigatoriamente panfletária”, dirá, referindo o filósofo francês Jacques Rancière e as suas reflexões sobre a política como “um exercício de estética”. Interessa-lhe contrariar a imagem do compositor “como ente supremo, como senhor do universo que criou todas as coisas e as pôs todas no seu lugar”. Prefere ver-se como um jardineiro, “alguém que cria um enquadramento, que tem acção sobre as coisas, mas que depois se retira e fica a observar, sabendo perfeitamente que é o tempo o elemento que fará com que tudo se revele fértil ou infértil”.
Tiago Sousa fala então de Thoreau e do taoismo, referência importante no trabalho mais recente — a sua ênfase na “espontaneidade, na naturalidade, esse não querer ser demasiado, não querer que o gesto seja muito pensado” —, fala deles e do contexto geracional que o enformou. “Sou fruto de um certo zeitgeist que começa no início do século XX e que se expande muito pelos anos 1960,
com tudo o que representou de procura por outra liberdade e destruição de uma série de estruturas hierárquicas que existiam e que ainda existem na sociedade.”
Na apresentação de Organic Music Tapes, no Bota, uma pequena e acolhedora sala, audiência repleta, público a ouvir atentamente, em silêncio total, um par de crianças a ouvir com os pais, alguns de olhos atentos no palco, outros de olhos cerrados, música e transportá-los em viagem interior. Silêncio total, aplausos guardados para o momento em que Tiago Sousa, no final de um tema, encarava o público e lhe lançava um sorriso cúmplice. Tudo em sentido contrário ao espalhafato e à excitação da cultura de massas contemporânea.
Naquele cenário, Tiago Sousa a oferecer-nos música de introspecção e de expansão no mesmo movimento. Um rumorejar de arpejos do órgão eléctrico sobre o qual vão brotando motivos melódicos, os drones que nos atraem para o seu centro, sons e ritmos subliminares discretamente assomando à superfície. Há traços do som enquanto matéria física, arma sensorial, como exposto pelos americanos La Monte Young ou Charlemagne Palestine, mas também a dimensão cósmica, exploração da máquina com anseios humanos, de aventureiros alemães da década de 1970 como os Harmonia ou Klaus Schulze.
Mais do que tudo isso, sentia-se nesta música, estruturada à volta de uma série de instruções (“aqui só tocas esta nota”, “aqui há uma de arpejo”, “aqui é o drone”), mas que segue, em palco e no estúdio, no preenchimento desses espaços definidos, uma toada improvisada, como que a busca por uma ideia de iluminação. Naquela sala no meio da cidade, um músico, o som que criava, o público que ouvia. O encontro comum num todo maior. Becoming a landscape é a última faixa do novo disco. Tornarmo-nos paisagem. Uma humildade muito poderosa, muito necessária na era do egocentrismo e do individualismo feroz, do primado da violência de quem detém qualquer tipo de poder sobre aqueles que vê abaixo de si.
Tiago Sousa gosta de sentir a música instrumental como “momento de libertação dos pensamentos para eles poderem ser aquilo que quiserem”. Tem testemunhado, pelo que vê e viu ao longo de todos estes anos, por aquilo que lhe dizem, por aquilo que sente ele mesmo enquanto ouvinte e espectador, “esse fenómeno de libertar a imaginação, de influenciar os corpos através da matéria vibrante do som”. Diz que é o seu “pequeno contributo” para nos mantermos a todos um pouco mais acordados, para “não ‘zombificarmos’ completamente e não nos tornarmos os consumidores passivos que tudo conspira para que nos tornemos”.
Há 20 anos que Tiago Sousa nos interpela a imaginação, música a seguir o seu rumo, nunca repetido, mas de marca autoral vincada. “A minha escala é circunscrita e tenho noção disso. Estamos a falar de concertos que têm 50, 100 pessoas, mas os discos vão saindo e vão sendo ouvidos.” Faz uma pausa e reflecte. “Concluindo com uma metáfora dos taoistas, é um bocado como a água. Vai pelos caminhos mais rasteiros e subterrâneos, transpõe obstáculos e continua por aí fora”. Há 20 anos que a ouvimos, há duas décadas que a sua música se vai transformando com o tempo. Vinte anos passados, a música de Tiago Sousa não tem fim. Seguimo-la.

