reflectir, corrigir…

Um artigo partilhado numa das mailgroups em q estou inscrito. Vale a pena pensar no caminho que “estamos a escolher” e no vazio de discussão em volta desta questão tão importante que aconteceu durante a campanha eleitoral e nos diferentes debates dos especialistas políticos q veiculam a mensagem para as massas na televisão:
Can Europe be saved?
resumo:
i) introdução do caminho até aqui
ii) a questão do euro: vantagens/desvantagens
iii) as opções da UE até agora (o falhanço da austeridade)
iv) as opções para Portugal
v) conclusão
i) breve introdução do caminho até aqui
grande parte do problema económico (e da resposta ao problema) que vivemos está relacionado com o euro.
Problema nº1 – “Europe lacked the institutions needed to make a common currency workable” – a adopção do Euro não foi acompanhada dos mecanismos necessários ao seu sucesso, como um fundo de apoio aos países deficitários e um BCE capaz de emprestar dinheiro directamente aos estados membros.
Problema nº2 – antes do euro, países como Portugal, Grécia, Itália não tinham acesso a empréstimos baratos porque as suas moedas não davam garantias – como tinham maior risco associado, pagavam juros mais altos, logo pediam menos emprestado. com a entrada no euro, passaram a ter acesso a empréstimos mais baratos (com taxas de juro mais baixas), porque a sua moeda era avaliada como mais estável. Logo como tinham acesso a empréstimos mais baratos, recorriam muito mais ao crédito, endividando-se para resolver problemas de curto prazo, adiando os custos para mais tarde em vez de tomar medidas reformadoras e estruturantes para resolver os problemas internos (porque essas medidas não trazem votos e os empréstimos permitiam continuar uma falsa “prosperidade”)
É importante notar que:
– a situação dos países não é homogénea. enquanto por exemplo na grécia a dívida acumulada é responsabilidade de governos gastadores, em Portugal a dívida é em maior parte responsabilidade dos privados (empresas e particulares)
– estes empréstimos não aconteceram inocentemente: foram financiados por grandes bancos europeus alemães, ingleses, franceses, que lucraram quantias obscenas com estes empréstimos (e até os bancos portugueses: basicamente, como o BCE está impedido legalmente de emprestar ao Banco de Portugal, os BES/BCP/BPI pediam emprestado ao BCE a +- 1% para depois emprestar ao Banco de Portugal a 5/6%);
Problema nº3 – a crise de 2008, que além de uma depressão do consumo e um aumento do desemprego teve um novo factor, a apropriação dos Estados da dívida dos Bancos, cobrindo as suas perdas na crise:
“there were the costs of financial clean-up. These have been especially crippling in Ireland, where banks ran wild in the boom years. When the bubble burst, the solvency of Irish banks was immediately suspect. In an attempt to avert a massive run on the financial system, Ireland’s government guaranteed all bank debts — saddling the government itself with those debts, bringing its own solvency into question.”
Tal como a Irlanda, Portugal garantiu a solvencia dos Bancos, garantindo os depósitos que estes deveriam ser capazes de garantir mas não o eram devido a incumprimentos legais, e assumindo as suas dívidas – ver caso BPN. Isto resulta da forma como o sistema financeiro americano resolveu a sua crise financeira: em vez de uma reforma séria, o mercado “livre” em que as empresas e o mercado funcionam individualmente de forma a que o interesse colectivo seja assegurado, livre para ter sucesso ou falhar, passou a ser: livre, excepto quando as empresas que falirem forem demasiado importantes, nesse caso o Estado assume as perdas e entra com o dinheiro (mas sobre isto já se escreveram livros, há muito a dizer…)
ii) a questão do euro
vantagens:
– “The advantages of a single European currency were obvious. No more need to change money when you arrived in another country; no more uncertainty on the part of importers about what a contract would actually end up costing or on the part of exporters about what promised payment would actually be worth. Meanwhile, the shared currency would strengthen the sense of European unity.”
desvantagens:
– perda de flexibilidade económica – para fazer face a uma crise económica (maior desemprego, menor consumo) era possível antes do euro reduzir o valor da moeda. isso permitia que as importações ficassem mais baratas para os outros países (vendiamos mais) e as exportações ficassem mais caras (gastavamos menos), o que permitia ultrapassar de certa forma (temporária) a crise. A outra opção é diminuir os salários e controlar a inflação (diminuir consumo interno), mas como é muito mais difícil de ser aceite pela população, o que acontecia era que se recorria às desvalorizações da moeda para combater as crises (que de facto diminuía os salários sem as pessoas se darem conta disso). É preciso ver que nenhuma destas medidas permitia combater os problemas de uma crise sem ser a curto prazo, exactamente devido a uma incapacidade de reforma do sistema capitalista, mas se calhar o momento em que nos encontramos é capaz de ser suficientemente grave para isso acontecer.
“Won’t workers reject de facto wage cuts via devaluation just as much as explicit cuts in their paychecks? Historical experience says no. Friedman argued, adjusting your currency’s value solves the coordination problem when wages and prices are out of line, sidestepping the unwillingness of workers to be the first to take pay cuts.”
iii) as opções da UE até agora (o falhanço da austeridade)
a austeridade não funciona para solucionar crises económicas, muito menos com economias sujeitas a pressões do endividamento crescente:
– “the collision between deflating incomes and unchanged debt can greatly worsen economic downturns. Suppose the economy slumps, for whatever reason: spending falls and so do prices and wages. But debts do not, so debtors have to meet the same obligations with a smaller income; to do this, they have to cut spending even more, further depressing the economy”
4 cenários: “As I see it, there are four ways the European crisis could play out (and it may play out differently in different countries). Call them toughing it out; debt restructuring; full Argentina; and revived Europeanism.”
1) toughing it out – o exemplo báltico (austeridade extrema)
as economias em causa (periféricas) podem ganhar credibilidade junto dos credores (e juros mais baixos) se mostrarem suficiente capacidade de sofrimento e de “apertar o cinto”. Seguir políticas fiscais muito austeras, grandes cortes em medidas sociais, promover uma grande diminuição dos salários e contracção da despesa – leva a que os mercados diminuam o risco de incumprimento associado a estes países.
“All of this has, however, come at immense cost: the Baltics have experienced Depression-level declines in output and employment. It’s true that they’re now growing again, but all indications are that it will be many years before they make up the lost ground.”
2) debt restructuring – reestruturação/renegociação da dívida – passa por aqui parte do caminho de Portugal?
o que significa? significa pedir prazos mais alargados, significa aceitar que não vamos conseguir pagar o que temos que pagar dentro dos prazos estipulados e às taxas exigidas. significa compreender que estar a pagar juros para pagar juros para pagar juros é insustentável, é adiar (ou piorar) o problema, e temos um exemplo claro que como não funciona – a Grécia neste momento é o que Portugal será daqui a um ano se aceitar o plano da troika, e o pior de tudo é que a solução proposta na Grécia para combater o falhanço da austeridade é a austeridade extrema. Renegociação da dívida significa também aceitar que não vamos pagar parte do que já pedimos emprestados, logo teremos que procurar outras fontes de financiamento: além de emitir títulos de dívida pública nacionais (como os certificados de aforro) e promover a poupança interna, é também possível recorrer a outros países (Brasil,…) como a Argentina fez com a Venezuela, outros países disposto a emprestar dinheiro a juros mais baixos e sem uma agenda política atrás. Significa também renegar parte da dívida privada, aceitar que realmente não temos que ser responsáveis pelas dívidas dos bancos privados.
“Such a debt restructuring would by no means end a troubled economy’s pain. Take Greece: even if the government were to repudiate all its debt, it would still have to slash spending and raise taxes to balance its budget”
3) full Argentina – exemplo islandês
“The European country that has come closest to doing an Argentina is Iceland, whose bankers had run up foreign debts that were many times its national income. Unlike Ireland, which tried to salvage its banks by guaranteeing their debts, the Icelandic government forced its banks’ foreign creditors to take losses, thereby limiting its debt burden.”
Aqui Krugman considera a hipótese de um país simplesmente não pagar a sua dívida externa. Tal como a Islândia, que recusou-se a pagar a dívida privada dos seus bancos e dessa forma . Mas a Islândia fez outra coisa que nós não podemos: desvalorizou a sua moeda para assim diminuir o poder de compra e diminuir o consumo. No fundo, o isolamento escolhido pela Islândia permitiu-lhe evitar um grande desemprego e decréscimo da economia, mas também foi forçada a uma diminuição real dos salários (mas neste caso já estariam falsamente elevados). Só que Portugal não pode desvalorizar a moeda, nem realmente sair do Euro – qualquer hipótese de isso acontecer seria desastrosa, pois levaria a uma corrida aos bancos, um quase-colapso do sistema económico como aconteceu na argentina e uma recessão que duraria vários anos:
“any euro-zone country that even hinted at leaving the currency would trigger a devastating run on its banks, as depositors rushed to move their funds to safer locales. (…) this “procedural” obstacle to exit made the euro irreversible.”
4) revived Europeanism – e-bonds (obrigações europeias)
Uma outra hipótese é exigir um novo rumo por parte da UE, que teria que passar por uma maior ajuda – afinal não se trata apenas dos mais ricos pagarem os erros dos mais pobres. Trata-se também de os mais pequenos estarem a sofrer as consequências da ganância dos países mais ricos, da forma como estes resolveram a crise financeira de 2008 cobrindo os erros dos seus bancos, da sua falta de regulamentação – enfim, como os países mais ricos têm vivido acima das suas possibilidades. Essa ajuda poderia passar pela criação de obrigações europeias. Estas seriam garantidas pela UE como um todo, logo estariam sujeitas a menores juros (menos arriscadas que empréstimos de países individuais), seriam uma forma de ajudar países em dificuldades.
“Since these bonds would be guaranteed by the European Union as a whole, they would offer a way for troubled economies to avoid vicious circles of falling confidence and rising borrowing costs. On the other hand, they would potentially put governments on the hook for one another’s debts”
v) conclusão
Visto que a saída do euro é impossível, seria demasiado desastrosa a nível económico, e visto que não o seria apenas para o país que o fizesse mas também para o resto dos países da zona euro, porque a partir do momento que um país abandonasse o euro provavelmente seguiriam-se outros, e isso seria também desastroso para os países que não abandonassem o euro porque a moeda iria perder confiança, Portugal tem que jogar com isso. E visto que a salvação da economia dos países em perigo não pode passar pela via da ultra-austeridade (que só daqui a 30 anos terá resultados e que só protege as economias mais fortes da europa), terá que ser feita através de mecanismos europeus, de reformas da UE. É necessário que Portugal e os outros países em causa (Grécia, Irlanda, Espanha, Itália?) se aliem para exigir medidas que assegurem um apoio sustentável, como as e-bonds. É necessário também procurar diferentes formas de financiamento, quer a nível interno (títulos de dívida pública) quer a nível externo (outros países), quer mesmo junto da UE, com a alteração dos estatutos do BCE, de modo a garantir juros baixos para países necessitados. É necessário que se perceba que a situação actual se deve também a quem lucrou com os empréstimos até agora. Pode ser preciso tomar medidas unilaterais (de preferência em conjunto com Grécia, Irlanda, etc ) de não pagamento da dívida privada, de não pagamento de empréstimos a juros que impedem o crescimento (como a Islândia fez). Existem partidos que defendem a austeridade como saída, os empréstimos a taxas altas como inevitáveis. Existem partidos que defendem que outros caminhos são possíveis, com medidas como os aqui enumerados. É preciso escolher, é preciso falar.
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