Crítica a Insónia no Ípsilon de hoje

Ao longo do seu percurso Tiago Sousa tem dado mostras de não se reger por convenções estilísticas. À frente da editora Merzbau impulsionou projectos portugueses tão diferentes como Noiserv, B Fachada, Lobster ou Frango, oriundos de fações como a pop, o
rock ruidoso ou o experimentalismo. Mas mesmo sabendo-se isso, “Insónia”, o seu terceiro álbum, lançado na editora alemã Humming Conch, acaba por surpreender.
Possui o tipo de espontaneidade que encontramos nas primeiras obras, apesar de já ser o seu terceiro
disco. Não é álbum facilmente categorizável. São sete peças instrumentais impressionistas, construídas maioritariamente por Tiago Sousa a partir do piano (toca também guitarra acústica e órgão), rodeado ocasionalmente pelos discretos, mas influentes, apontamentos percussivos de João Correia e pelo clarinete de Ricardo Ribeiro.
Há alusões à música clássica contemporânea, ao jazz, ou mais remotamente, a formatos pop mais livres, mas o que sobressai no conjunto, independentemente das escolas onde se inspira é o apuro formal na construção dos ambientes nocturnos e o libertar de
melodias emocionantes tocadas com enorme simplicidade.
É música de respiração interior, mas que não se fecha na sua redoma, procurando o espaço de partilha. Às vezes parece que Tiago acaricia as notas, espaçadamente, aspirando o silêncio, desenhando-o plasticamente como em “Movimento”, “Pêndulo”, ou “Insónia”.
em “Folha Caduca”, “Passos” ou “Surrealismo Impressionista” há mais laboratório, desejo de experiência, sem nunca serem abandonadas as sequências harmónicas, os contrapontos melódicos, um rasto de formas fluidas e de sons crepitando e projectando uma geografia intima onde apetece permanecer.
4/5
Vitor Belanciano

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