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	<title>Tiago Sousa &#187; Vitor Belanciano</title>
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		<title>a cidade dormitório que não quer dormir</title>
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		<pubDate>Wed, 01 Dec 2010 11:01:07 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Tiago Sousa</dc:creator>
				<category><![CDATA[Uncategorized]]></category>
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		<category><![CDATA[Vitor Belanciano]]></category>

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		<description><![CDATA[Miguel Manso Barreiro, uma ilha à espera de ser redescoberta 24.11.2010 &#8211; Vítor Belanciano O que é que o Barreiro tem? Um ambiente experimental urbano, festivais, música, uma zona industrial com inúmeras possibilidades de reconversão e uma identidade assentes no associativismo. O que é que o Barreiro não tem? Talvez a capacidade para estimular o [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><img class="alignnone" src="http://ipsilon.publico.pt/imagens.aspx/342697?tp=KM&amp;w=298" alt="" width="298" height="224" /></p>
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<div id="dvTexto" style="font-size: 12px;"><span id="ctl00_ctl00_ContentPlaceHolder1_Detalhes_Texto_texto"><strong><em>O  que é que o Barreiro tem? Um ambiente experimental urbano, festivais,  música, uma zona industrial com inúmeras possibilidades de reconversão e  uma identidade assentes no associativismo. O que é que o Barreiro não  tem? Talvez a capacidade para estimular o potencial que tem entre mãos</em></strong></p>
<p>Uma  cidade é feita de muitas camadas. Comecemos pela pele. O Barreiro é  dormitório. Subúrbio. Viagem de barco de vinte minutos a partir de  Lisboa. Metrópole de gases poluentes expelidos por fábricas e de  oficinas da CP com aspecto caduco. Cidade de gente cansada que mal dorme  e trabalha em Lisboa num escritório. A pele, o senso comum, os chavões,  não falseiam.</p>
<p>Mas não revelam tudo. A pele revela apenas um ponto  de vista. Observemos melhor, como o arquitecto é capaz de perceber as  possibilidades de uma casa mesmo se para os leigos ela parece estar em  ruína. O Barreiro possui a área com mais potencialidade de reconversão  da zona metropolitana, bairros operários com aptidão de transfiguração e  um património industrial sem igual.</p>
<p>Tem colectividades em cada  ruela. Modos de relacionamento que funcionam como factores de coesão  social. O associativismo é uma forma de estar. É uma urbe participativa.  E possui um ambiente urbano singular, assente na urgência de fazer, em  festivais de música, em grupos rock, numa escola de jazz, no teatro, na  boémia e numa das populações mais jovens do país.</p>
<p>Nos anos 80, num  concurso da RTP, à pergunta &#8220;que cidade é famosa pelo seu nevoeiro?&#8221;,  uma senhora respondeu, confiante, &#8220;Barreiro&#8221;. Para muitos ainda será  assim. Mas é possível avistar outra realidade, como o realizador e  fotógrafo Anton Corbjin, que ali achou o lugar pós-industrial ideal para  filmar os U2 em 2004.</p>
<p><strong>O alvoroço na música</strong></p>
<p>A  pele revela. Mas é preciso saber ver. António Câmara, professor  catedrático, director da YDreams, Prémio Pessoa em 2006, anda a olhar  para o Barreiro há muito. &#8220;Fui pela primeira vez, em 1972, aos 16 anos,  para ver jogar Earnest Killum, antigo jogador dos Los Angeles Lakers,  que o Barreirense havia contratado&#8221;, recorda. Durante esse ano apanhava o  barco de Lisboa para a outra margem, para assistir aos jogos de  basquete. Quando regressou dos EUA e foi viver para o Meco, o filho  acabou no Barreirense. &#8220;Levei-o a uma sessão de treino, percebi o  entusiasmo que havia naquele lugar e não hesitei.&#8221; Ainda hoje pensa que  foi uma das melhores decisões da sua vida. &#8220;Foi a melhor &#8216;escola&#8217; que  ele podia ter frequentado, aprendendo valores fundamentais como a  paixão, o espírito de sacrifício, a resistência, saber ganhar e perder.&#8221;  Aprendeu basquete e também a &#8220;aspirar à excelência.&#8221;</p>
<p>Durante  cinco anos, quase diariamente, conduzia o filho aos treinos e depressa  apreendeu elementos fundamentais da cidade: &#8220;Percebi que havia um  espaço, a Quimiparque, ou seja a ex-CUF, que é o espaço com mais  potencial na área metropolitana de Lisboa, porque está à beira do rio e  são quase 300 hectares onde seria possível fazer uma nova Expo, mas mais  experimental.&#8221;</p>
<p>E também que havia uma atmosfera cultural própria.  &#8220;Notei que havia boas livrarias, como a Bocage, e um grande interesse  pela música &#8211; não só no Barreiro, como nas áreas adjacentes. Havia  muitos grupos ligados ao rock, jazz ou hip-hop. Senti que havia ali um  ambiente experimental urbano que era fora do comum. E depois havia  também um associativismo que me surpreendeu.&#8221;</p>
<p>Os indícios desses  anos avolumaram-se. Hoje discute-se o futuro da área industrial da  Quimiparque e do ponto de vista cultural vive-se um momento agitado. A  companhia de teatro Arte Viva celebra 30 anos, integrando uma escola que  tem hoje 100 alunos, maneira de integrar a população. Mas é sobretudo  na música o alvoroço.</p>
<p>Em Setembro, no auditório Augusto Cabrita,  decorreu o festival Barreiro Outras Músicas (BOM), com os americanos  Anti-Pop Consortium, figuras de proa do hip-hop progressista, o alemão  Oval, nome fundamental das electrónicas abstractas, ou os portugueses  Lula Pena, Tigrala e os locais The Hidden Cookie.</p>
<p>Durante o mês  de Outubro decorreu &#8220;A Cidade e a Música&#8221; com mais de uma dúzia de  espectáculos dedicados a várias áreas musicais. A meio de Outubro foi a  vez da sétima edição do OUT.FEST, evento maior em Portugal no campo das  músicas exploratórias, que contou com Panda Bear (Animal Collective),  nomes do jazz de vanguarda (Alex Von Schlippenbach e Lol Coxhill) ou  projectos mais do que credíveis como os americanos Oneothrix Point Never  e Emeralds.</p>
<p>No segundo fim de semana de Novembro foi a vez da 10ª  edição do Barreiro Rocks, no Clube Desportivo Ferroviários, com os  americanos Strange Boys e King Khan &amp; The Shrines ou os locais  Nicotine&#8217;s Orchestra. Duas noites esgotadas com rock &amp; roll,  celebração, festas depois dos concertos, ambiente multifacetado,  engalanado pela presença do &#8220;crooner&#8221; Vieira, 81 anos, mestre de  cerimónias de um acontecimento que atrai espanhóis e ingleses.</p>
<p>Todos  estes acontecimentos têm o apoio da câmara local (no caso do OUT.FEST,  também da DGartes) e acontecem em espaços como o Auditório Augusto  Cabrita ou a Casa da Cultura, mas também nas incontáveis colectividades e  associações, como Os Franceses, Penicheiros, Ferroviários, Clube Naval  ou Cine Clube.</p>
<p>Mas não é só os festivais. É também a proliferação  de projectos. Por um lado existem bandas conotadas com as linguagens  mais exuberantes do rock &#8211; onde a cabe distorção, energia descontrolada,  mas também a soul ou funk dos primórdios -, algumas delas agrupadas na  compilação &#8220;Barreiro Rocks&#8221; da colecção OptimusDiscos, como Act Ups,  Ballyhoos, Tracy Lee Summer, Fast Eddie &amp; The Riverside Monkeys,  Nicotine&#8217;s Orchestra, Los Santeros, Sullens ou Singing Dears. Alguns  músicos, com destaque para Carlos Ramos (Nick Nicotine), circulam por  algumas destas formações, ele que é também o mentor da  editora-associação-produtora Hey! Pachuco!</p>
<p>Por outro, existem  músicos como Mike Styles ou os Hidden Cookie, mais próximos da folk ou  do rock alternativos, ou os Frango, PCF Moya, Pow! ou Tiago Sousa, mais  difíceis de enquadrar e conotados com diversas linguagens exploratórias.  Há ainda a Escola de Jazz do Barreiro, dirigida pelo músico Jorge  Moniz, embrião de actividades, como os concertos semanais no espaço Be  Jazz Café, com formações que tanto contemplam alunos, como nomes  firmados do jazz. E inúmeros projectos de hip-hop e kuduro, a maior  parte ainda confinada à invisibilidade.</p>
<p><strong>Partilha do conhecimento</strong></p>
<p>Não  nasceram de geração espontânea. Há muito que a cidade é lugar de música  e boémia. Durante o antigo regime a música estava ligada ao movimento  associativo, com cantores reprimidos pelas autoridades a tocarem em  colectividades, facultando uma oferta cultural que não se encontrava em  mais nenhum lugar.</p>
<p>Rui Paz, arquitecto, trocou o Barreiro pelo  Porto há dez anos, mas não esqueceu o papel que as colectividades  tiveram na educação de avós e pais. &#8220;A população nos anos 50, 60 e por  aí fora era muito culta, em comparação com a média em Portugal, por  causa delas [das colectividades]. Havia bibliotecas, partilha do saber.&#8221;  Hoje as novas gerações voltam a reaproveitá-las como espaços culturais,  mas Rui Paz queria que se fosse mais longe. &#8220;O modelo das  colectividades é actual &#8211; essa ideia da partilha do conhecimento &#8211; mas  teria que ser feita uma readaptação aos nossos tempos.&#8221;</p>
<p>Nos anos  80 foi o ímpeto das rádios piratas (Margem Sul ou Sul e Sueste) e de  alguns espaços nocturnos, como os pequenos bares Alburrica e Portão, e  os inúmeros cafés e tascas das ruelas do chamado &#8220;Barreiro velho&#8221;, como a  relaxada Vinícola, que funcionaram como embrião de algumas aventuras  importantes.</p>
<p>Vivia-se o período pós-punk e o Barreiro era  comparado à Manchester dos Joy Division pela paisagem industrial, mas  também porque albergava muitos melómanos a par do que se passava de mais  aventureiro nas capitais do mundo. Foi nesse contexto que na segunda  metade dos anos 80 grupos como os Rocócó, marcados pelas visões  industrias, ou os Soberano Veste Chanel, acabam por alcançar alguma  projecção.</p>
<p>A primeira metade dos anos 90 são marcadas pelo grunge  e pela explosão da música de dança e o Barreiro estava lá. Na discoteca  Os Franceses, adjacente à colectividade do mesmo nome, ouvia-se tecno e  house, coisa rara em Portugal. À frente dos destinos do bar Alburrica  estava Jorge Sol, que havia integrado os Rocócó, e que é actualmente  director criativo da MiopiaDesign.</p>
<p>&#8220;Em termos musicais estávamos  alinhados com aquilo que se passava em Lisboa&#8221; recorda. &#8220;Foram anos  incríveis. Mas não era só o Alburrica. Era também o Portão, a Carvoaria,  os Franceses, o DNA, existia um circuito nocturno estimulante.&#8221;</p>
<p>Hoje  continua a sentir uma &#8220;dinâmica criativa enorme.&#8221; Mas a noite está  diferente. Nesse período havia uma mística &#8211; &#8220;nos anos 90 havia malta  que fazia 30 quilómetros para vir ao Barreiro&#8221; &#8211; que se perdeu. &#8220;Essa  ideia de circuito não existe, com excepção do Alburrica que continua a  ser um local de culto.&#8221;</p>
<p>Hoje o ponto de encontro é o largo dos  Penicheiros, onde jovens de cerveja na mão circulam de café em café. O  espaço da Chapelaria, importante local de cumplicidade, fechou. O mesmo  acontecendo com El Matador (mais tarde Espaço B), local que no início de  2000 albergou as bandas que marcam o ritmo da cidade.</p>
<p>Mas a  correia de transmissão entre gerações funcionou. Nos anos 90 algumas  bandas rock distinguiram-se, como os Gasoline, Toast ou Unladylike  Scream. Com meia dúzia de concertos, os últimos são a banda mais  recordada, em parte pelas performances viscerais do cantor Paulo Lameira  e do guitarrista Nuno Cunha &#8211; há vídeos no youtube que o testemunham.  Para Nick Nicorette eles foram &#8220;a coisa mais intensa que o Barreiro já  viu.&#8221;</p>
<p>Rui Paz não se esqueceu desse período. &#8220;O Lameira era um  tipo incrível em palco, havia uma energia particular em tudo aquilo. O  Barreiro era especial, com gente muito criativa, mas é preciso alimentar  essa criatividade, comunicá-la, de contrário esgota-se. Deve ter  acontecido isso com os Unlady e com outros. Em lugares como o Barreiro a  possibilidade de se passar completamente ao lado de qualquer coisa  aumenta.&#8221;</p>
<p>Uma visão algo semelhante tem Nelson Gomes, da produtora  Filho Único e músico dos Gala Drop, que já não vive no Barreiro há oito  anos. &#8220;É uma cidade que fica demasiado perto de Lisboa, mas ao mesmo  tempo está longe, vive nesse conflito entre não querer ser subúrbio,  tendo uma dinâmica própria, mas não conseguindo, acabando por estar  sempre a olhar para Lisboa. Para quem quer ir mais além, não ficar  abafado, só lhe resta sair.&#8221;</p>
<p><strong>O local e o global</strong></p>
<p>Não  vale a pena romantizar o que está a acontecer neste momento no  Barreiro. Mas desvalorizá-lo é também não perceber como se geram este  tipo de dinâmicas. Tiago Sousa sabe-o.</p>
<p>Responsável pela já  extinta editora Merzbau (B Fachada, Lobster), envolvido na organização  dos festivais, autor de um dos melhores álbuns portugueses do ano  passado (&#8220;Insónia&#8221;, música para piano de expressividade emocional), e  com registo novo para editar em Fevereiro pela americana Immnune  (&#8220;Walden Pond&#8217;s Monk&#8221;) aspira cada vez mais a comunicar para um público  &#8220;global&#8221;, mas continua ter um olhar muito lúcido sobre o &#8220;local&#8221;.</p>
<p>&#8220;Não  vale a pena embandeirar em arco com algo cujos defeitos e virtudes  conhecemos bem, mas também é preciso não subestimar o efeito do que tem  vindo a ser construído&#8221; afirma, dando exemplos: &#8220;ao cabo de dez anos,  foi a edição com mais pessoas do Barreiro Rocks, com um ambiente  saudável, muita gente de fora e uma dinâmica própria, e o OUT.FEST  também foi o mais conseguido de sempre. A cidade tem ganho com a  exposição dos festivais. Considerando que os fenómenos culturais são  parte de um todo que envolve criação e público, o Barreiro é um fenómeno  coxo, mas não será o pais inteiro assim? Não é expectável que mudemos  isso. No entanto, dentro daquilo que está aqui a ser feito, o Barreiro é  um fenómeno que importa alimentar.&#8221;</p>
<p>A principal dificuldade é  convencer a população local a envolver-se mais. &#8220;Essa é a maior  esquizofrenia&#8221; diz. &#8220;Existe uma grande diferença entre aquilo que um  grupo de pessoas, apesar de tudo reduzido, consegue fazer &#8211; atraindo  pessoas de Lisboa e áreas adjacentes &#8211; e o espaço da cidade crescer a  partir dessa base.&#8221;</p>
<p>Rui Pedro Dâmaso, músico (Frango, PCF Moya) e  organizador do OUT.FEST, tem postura semelhante. &#8220;É como se não fosse  legitimo esperar que houvesse uma vida cultural aqui, &#8220;então isso faz  com que as pessoas não estejam atentas ao que se vai passando fora de  alguns círculos. Às vezes é difícil. As coisas vão acontecendo. Há  entusiastas. Mas depois falta que haja mais coisas para além daquelas  que vão sendo feitas por nós.&#8221;</p>
<p>Ou seja, faz falta que a cidade se  olhe ao espelho, e defina um rumo. &#8220;O que pode diferenciar a cidade de  outro lugar suburbano é isso: a cultura. Quando acontecem os festivais é  uma das poucas alturas do ano em que se projecta uma imagem diferente.  Em que as pessoas vêm cá para algo que só o Barreiro pode oferecer.&#8221;</p>
<p><strong>A importância da memória</strong></p>
<p>Geograficamente  é uma cidade ambígua. Perto e longe de Lisboa. Talvez por isso a  possível construção de uma ponte Chelas-Barreiro suscite divisões. Há  quem defenda que essa é a única via de desenvolvimento, e quem sustente  que isso a tornará numa cidade indistinta. &#8220;Isto não é como Almada ou a  zona Norte de Lisboa&#8221; diz Dâmaso. Ou seja, não é  local de passagem. &#8220;Ao  Barreiro só vem quem quer mesmo. Isto acaba por ser uma ilha.&#8221;</p>
<p>Há  um assunto onde todos estão de acordo. A história do Barreiro é rica e  não tem sido valorizada junto das novas gerações, nem comunicada ao  país, mesmo se há dois anos a CUF fez 100 anos e a data foi lembrada com  uma série de iniciativas. Era preciso que esse legado não se perdesse,  dizem.</p>
<p>A experiência da CUF foi incomparável. Foi ali que se fez a  revolução industrial portuguesa. Ali se concretizou o sonho de Alfredo  da Silva, o grande empresário português da primeira metade do século XX,  que criou um novo conceito de família, à volta das fábricas, inovadora  para a época. Substituiu-se aos deveres sociais do Estado, criou a sua  própria segurança social, hospitais e escolas. Era um país dentro do  país. O que é curioso que é a experiência da CUF volta a estar actual.  Nos EUA, por exemplo, há uma série de experiências comunitárias ditas de  carácter experimental, com características semelhantes.</p>
<p>Há todo  um legado que se vai perder se não for feito nada, diz a arquitecta  Joana Astolfi, que desenvolveu o design da exposição &#8220;Cem anos da Cuf no  Barreiro&#8221;, e que ficou fascinada com o que foi encontrar. &#8220;Não sabia  nada sobre o Barreiro. Não sabia nada sobre o Alfredo da Silva. Ele  criou um mundo. Há ali um património que interessava preservar porque a  história da CUF é notável e merecia passar de geração em geração neste  pais.&#8221;</p>
<p>Há apenas um pequeno núcleo museológico, o Museu Industrial  da Quimiparque, que está quase sempre encerrado, mas segundo Astolfi  &#8220;já se perdeu imenso património. Há pessoas que coleccionaram peças  antes de desactivarem as fábricas, mas quando lá cheguei encontrei tudo  desorganizado. Apenas deu para ir buscar coisas com valor gráfico,  visual e histórico. A sensação que tive foi: isto está esquecido. Tive  que fazer uma filtragem enorme.&#8221;</p>
<p>O espaço envolvente da  Quimiparque, constituído por bairros operários, também encerra múltiplas  possibilidades. Nos últimos anos uma série de empresas e ateliers  (publicidade, design, serviços) fixaram-se ali, mas ainda há muito por  desbravar. &#8220;Naquela zona devia existir um museu à séria&#8221;, afirma Joana  Astolfi, &#8220;com capacidade de atracção&#8221;, porque, de contrário, &#8220;parte da  nossa história, e da memória do Barreiro, perder-se-á.&#8221;</p>
<p>No  projecto que António Câmara tem para o Barreiro, desenhado em conjunto  com a Câmara Municipal, a memória joga um papel essencial. &#8220;Há uma parte  decadente da cidade&#8221; reconhece, &#8220;mas ao mesmo tempo há uma vibração  enorme e foi por isso que delineámos um programa que pretende mobilizar  as energias jovens que existem para fazer algo diferente e chegámos a um  conceito a que demos o nome de Fabricarte.&#8221; A ideia é criar um centro  comunitário, misto de biblioteca do futuro, centro de ciência, zona de  experimentação e fabricação &#8211; inspirado no conceito dos Fab Lab do MIT &#8211;  e de incubadora de empresas.&#8221; Para o projecto funcionar dois elementos  essenciais interconectam-se.</p>
<p>&#8220;Um é a ligação aos antigos  operários e às artes que eles dominavam, num contexto completamente  tecnológico. A ideia era entrevistar quem tinha trabalhado na CUF nas  mais diversas áreas e fazer um registo. Um trabalho de memória. Houve um  trabalho do Instituto de Ciências Sociais sobre os artesãos de Portugal  e é um pouco nessa linha. Investigar, detectar todos os saberes, e  depois tentar adaptá-los às tecnologias modernas.&#8221;</p>
<p>O propósito é  fácil de compreender. &#8220;Há saberes que não convém perder. Por exemplo,  nos EUA, neste momento, ninguém sabe fazer ecrãs. São feitos na China.  Resultado: por cada emprego gerado pelos iPad nos EUA há dez empregos  gerados na China. No Barreiro há saberes que se irão perder com estas  gerações e que poderão ter interesse num contexto completamente  diferente.&#8221;</p>
<p>A outra componente importante do projecto &#8220;tem a ver  com as áreas em que achamos que o Fabricarte devia especializar-se: a  música e o desporto.&#8221; O potencial de atracção já existe. Só tem que ser  estimulado. Da música, já falámos. Do desporto, basta pensar no papel  que clubes (Barreirense, CUF ou Luso) e colectividades tiveram na  prospecção de talentos, que alimentaram, durante décadas, equipas de  futebol como o Benfica de Bento, Chalana, Carlos Manuel, Diamantino e  outros.</p>
<p>&#8220;A ideia era ter um centro onde se pudesse ler tudo o que  há sobre música, experimentar música, fazer música, ou ler sobre  desporto, com uma parte de experimentação que fosse quase um centro de  ciência viva em que explorassem esses dois temas. Haver possibilidade  das pessoas tocarem, inventarem novos objectos, utilizando a fabricação,  imaginar novos sensores para o desporto, ou novos equipamentos, ou  novos instrumentos musicais. Tudo ligado isto ligado à música e ao  desporto.&#8221;</p>
<p>E o que falta para o projecto avançar? O tradicional em  Portugal &#8211; financiamento. Há dinheiros comunitários, falta a parcela  portuguesa, afirma. &#8220;Toda a gente está interessada, tem imensas  potencialidades e o Barreiro é o ambiente ideal&#8221;, diz António Câmara.  Seja com este, ou com outro projecto, o que os novos actores culturais  da cidade desejam é que não sejam esquecidos. &#8220;Era importante agora que  se fala muito do futuro da zona industrial, que aquilo que tem emergido  como cultura própria do Barreiro pudesse ser integrado nessa ideia de  futuro que é necessária para a cidade&#8221;, conclui Rui Pedro Dâmaso.</p>
<p>O  potencial de futuro está lá. A memória, a identidade, uma ideia de  comunidade fragilizada mas que a ainda subsiste, a energia do fazer, a  criatividade, os espaços com desejo de serem reconvertidos. Falta  conectar. Estimular. Se isso acontecerá ou não o futuro dirá. Mas o  filão está lá. Na ilha do Barreiro.</p>
<p></span></div>
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		<title>Crítica a Insónia no Ípsilon de hoje</title>
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		<pubDate>Fri, 27 Nov 2009 10:49:01 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Tiago Sousa</dc:creator>
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		<category><![CDATA[Insónia]]></category>
		<category><![CDATA[Ípsilon]]></category>
		<category><![CDATA[Vitor Belanciano]]></category>

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		<description><![CDATA[Ao longo do seu percurso Tiago Sousa tem dado mostras de não se reger por convenções estilísticas. À frente da editora Merzbau impulsionou projectos portugueses tão diferentes como Noiserv, B Fachada, Lobster ou Frango, oriundos de fações como a pop, o rock ruidoso ou o experimentalismo. Mas mesmo sabendo-se isso, &#8220;Insónia&#8221;, o seu terceiro álbum, [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Ao longo do seu percurso Tiago Sousa tem dado mostras de não se reger por convenções estilísticas. À frente da editora Merzbau impulsionou projectos portugueses tão diferentes como Noiserv, B Fachada, Lobster ou Frango, oriundos de fações como a pop, o<br />
rock ruidoso ou o experimentalismo. Mas mesmo sabendo-se isso, &#8220;Insónia&#8221;, o seu terceiro álbum, lançado na editora alemã Humming Conch, acaba por surpreender.<br />
Possui o tipo de espontaneidade que encontramos nas primeiras obras, apesar de já ser o seu terceiro<br />
disco. Não é álbum facilmente categorizável. São sete peças instrumentais impressionistas, construídas maioritariamente por Tiago Sousa a partir do piano (toca também guitarra acústica e órgão), rodeado ocasionalmente pelos discretos, mas influentes, apontamentos percussivos de João Correia e pelo clarinete de Ricardo Ribeiro.<br />
Há alusões à música clássica contemporânea, ao jazz, ou mais remotamente, a formatos pop mais livres, mas o que sobressai no conjunto, independentemente das escolas onde se inspira é o apuro formal na construção dos ambientes nocturnos e o libertar de<br />
melodias emocionantes tocadas com enorme simplicidade.<br />
É música de respiração interior, mas que não se fecha na sua redoma, procurando o espaço de partilha. Às vezes parece que Tiago acaricia as notas, espaçadamente, aspirando o silêncio, desenhando-o plasticamente como em &#8220;Movimento&#8221;, &#8220;Pêndulo&#8221;, ou &#8220;Insónia&#8221;.<br />
em &#8220;Folha Caduca&#8221;, &#8220;Passos&#8221; ou &#8220;Surrealismo Impressionista&#8221; há mais laboratório, desejo de experiência, sem nunca serem abandonadas as sequências harmónicas, os contrapontos melódicos, um rasto de formas fluidas e de sons crepitando e projectando uma geografia intima onde apetece permanecer.<br />
4/5<br />
Vitor Belanciano</p>
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