ideologias e política

May 26th, 2010

“O Consumismo, por sua vez, suprimiu a crença nas ideologias, reduzidas ao estado de mercadorias nos intermutáveis expositores onde são exibidas. A política saldou os seus projectos de sociedade, aliás pouco convincentes, aplicando-se a satisfazer o hedonismo da sua clientela. Ao clarim do empenhamento e do sacrifício militantes substituiu-se o altifalante da venda promocional.

Os princípios do marketing só deixaram ao homem político uma ambição, a de ser comprado. A vontade de poder, que ontem lhe era prescrita pela actividade de se impor ao povo e de o governar, foi enfraquecendo no ridículo de exibições publicitárias sobretudo destinadas a provar que ele é consumível, e sem perigo.

Homem de palha ou caixeiro-viajante da acumulação financeira internacional, o político, num crescente mal-estar reveza a informação que circula, num delírio autístico, à velocidade do dinheiro enlouquecido. Mas como se faria ele ouvir, dispondo cada vez menos de palavras e cada vez mais de números? o que ganha na estima dos que nele mandam, perde-o em clientela. Deste modo se vê induzido a tornar-se em breve um homem de negócios.”

Raoul Vaneigem

sobre o trabalho

May 26th, 2010

“O trabalho foi aquilo que o homem achou de melhor para nada fazer da sua vida. Mecanizou, quando se tratava de inventar uma constante vivacidade. Privilegiou a espécie à custa do indivíduo, como se fosse preciso, para perpetuar o género humano, uma pessoa renunciar à fruição de si mesma e do mundo produzindo a sua própria desumanidade.

O estado planetário de ruína, isto a que conduziu a transformação da natureza numa matéria morta, mereceria ilustrar, nos futuros museus da barbárie arcaica, a salutar advertência: <<Aprendam e criar, nunca trabalhem!>>”

Raoul Vaneigem