O Método Emancipador

December 5th, 2010

<<Na lógica pedagógica, o ignorante não é apenas aquele que ignora ainda o que o mestre sabe. É antes aquele que não sabe o que ignora nem como chegar a saber isso que ignora. O mestre, esse, não é apenas o indivíduo que detém o saber ignorado pelo ignorante. É também aquele que saber como fazer da coisa ignorada um objecto de saber, em que momento e segundo que protocolo. Porque, em boa verdade, não há ignorante que não saiba já um conjunto de coisas, que, não as tenha aprendido por si próprio olhando e escutando à sua volta, observando e repetindo, enganado-se e corrigindo os seus erros. Mas, para o mestre, um tal saber não passa de um saber de ignorante, um saber incapaz de se ordenar segundo a progressão que vai do mais simples ao mais complexo. O ignorante progride comparando o que descobre com aquilo que já sabe, ao saber do acaso dos encontros, mas também segundo a regra aritmética, a regra democrática que faz da ignorância um menor saber. Preocupa-se apenas em saber mais, em passar a saber aquilo que ainda ignorava.   O que lhe falta, o que sempre faltará ao aluno, a não ser que se torne ele próprio mestre, é o saber relativo à ignorância, o conhecimento da distância exacta que separa o saber da ignorância.

Essa medida escapa precisamente à aritmética dos ignorantes. O que o  mestre sabe, o que o protocolo de transmissão do saber começa por ensinar ao aluno, é que a ignorância não é um menor saber. A ignorância é o posto do saber, porque o saber não é um conjunto de conhecimentos, mas sim uma proposição. A distância exacta é a distância que nenhuma regra mede, a distância que se prova pelo simples jogo das posições ocupadas, que se exerce pela interminável prática do <<passo mais à frente>> que separa o mestre do indivíduo que supostamente o mestre deve trazer até junto de si. A distância é a metáfora do abismo radical que separa o modo de estar do mestre do do ignorante porque separa duas inteligências: a que sabe em que consiste a ignorância e a que o desconhece. É antes de mais este afastamento radical que é ensinado ao aluno pela ordenação própria do ensino progressivo. Este ensina-lhe antes de mais a respectiva incapacidade. E, assim sendo, trata de verificar constantemente no seu agir o seu próprio pressuposto, a desigualdade das inteligências. Esta interminável verificação é aquilo a que Jacotot chama embrutecimento.

A essa prática do embrutecimento opunha Jacotot a prática da emancipação intelectual. A emancipação intelectual é a verificação da igualdade das inteligências. Esta igualdade não significa um igual valor de todas as manifestações da inteligência, mas a igualdade da inteligência relativamente  a si mesma em todas as usas manifestações. Não há dois tipos de inteligência separados por um abismo. O animal humano aprende todas as coisas como começou por aprender a língua materna, como aprendeu a aventurar-se na floresta das coisas e dos signos que o rodeiam, para assim tomar lugar entre os humanos: observando e comparando uma coisa com outra, um signo com um facto, um signo com outro signo. Se o iletrado conhece de cor somente uma oração, pode comparar esse saber com o que ainda ignora: as palavras dessa oração escritas num papel. Pode aprender, signo após signo, a relação daquilo que ignora com o que sabe. Pode fazê-lo, se, a cada passo, observar o que tem à sua frente, disser o que viu e verificar o que disse. Deste ignorante que soletra os signos até ao cientista que constrói hipóteses é sempre a mesma inteligência que se encontra em acção, uma inteligência que traduz signos por outros signos e que procede por comparações e figuras para comunicar as suas aventuras intelectuais e compreender aquilo que uma outra inteligência trata de lhe comunicar.>>

Jacques Rancière, O Espectador Emancipado

Numa linda edição da  Orfeu Negro

http://www.orfeunegro.org/espectador.php?op=8

os negócios de cada um

November 28th, 2010

<<Mas ainda é preciso, para verificar essa procura, saber o que quer dizer procurar. Esse é o cerne de todo o método. Para emancipar a outrem, é preciso que se tenha emancipado a si próprio. É preciso conhecer-se a si mesmo como viajante do espírito, semelhante a todos os outros viajantes, como sujeito intelectual que participa dapotência comum dos seres intelectuais.
Como se tem acesso a esse conhecimento de si? “Um camponês, um artista (pai de família) se emancipará intelectualmente se refletir sobre o que é e o que faz na ordem social.”" A coisa parecerá simples, ou mesmo simplória, para quem desconhece o peso do velho mandamento que a filosofia, pela voz de Platão, instituiu como destino para o artesão: Não faças nada além de teu próprio negócio,que não é de pensar no que quer que seja, mas simplesmente fazer essa coisa que esgota a definição dc teu ser: se tu és sapateiro, calça-dos e crianças que serão sapateiros. Não é a ti que o oráculo délfico recomenda conhecer-se. E, mesmo se a divindade, brincalhona, se divertisse em semear na alma de teu filho um pouco do ouro do pensamento, é à raça de ouro, aos guardiães da pólis que incumbiria a tarefa de educá-lo, para torná-lo um deles.
É bem verdade que a era do progresso pretendeu abalar a rigidez do velho mandamento. Com os enciclopedistas, decretou que nada mais se fizesse como rotina, nem mesmo o trabalho dos arte-sãos. E sabia que não há ator social, por mais ínfimo que seja, que não se constitua, ao mesmo tempo, em um ser pensante. O cidadão Destutt de Tracy relembrou, no alvorecer do novo século: “Todo homem que fala tem idéias de ideologia, de gramática, de lógica e de eloqüência. Todo homem que age tem princípios de moral privada e de moral social. Todo ser, apenas por vegetar, desenvolve suas noções de física e de cálculo; e, somente pelo fato de viver com seus semelhantes, desenvolve sua pequena coleção de fatos históricos e sua maneira de julgá-los.
Impossível, portanto, que os sapateiros façam apenas calçados– que não sejam também, à sua maneira, gramáticos, moralistas e físicos. Este é o primeiro problema: enquanto os artesãos e os camponeses formarem essas noções de moral, de cálculo ou de física,segundo a rotina de seu meio ou o acaso de seus encontros, a marcha racional do progresso será duplamente contrariada: retardada pelos rotineiros e supersticiosos, ou perturbada pelo açodamento dos violentos. Faz-se, portanto, necessário que um mínimo de instrução,retirado dos princípios da razão, da ciência e do interesse geral, imbua de noções sadias cabeças que, sem isso, as formarão falhas. Escusado mencionar que essa empreitada será tão mais proveitosa quanto mais ela subtrair o filho do camponês ou do artesão do meio natural produtor dessas falsas idéias. No entanto, essa evidência encontra rapidamente sua contradição: a criança que deve ser subtraída à rotina e à superstição deve, no entanto, voltar à sua atividade e à sua condição.E a era do progresso foi, desde sua aurora, advertida do perigo mortal que há em separar a criança do povo da condição para qual está votada e das idéias relativas a essa condição. Assim, ela se esbarra com essa contradição: sabe-se, agora, que as ciências dependem todas de princípios simples, que são acessíveis a todos os espíritos que delas desejarem se apropriar, desde que sigam o método adequado. Mas, a mesma natureza que abre a carreira das ciências a todos os espíritos quer uma ordem social em que as classes estejam separadas e os indivíduos conformados ao estado social que lhes é destinado.>>

jacques rancière em o mestre ignorante.

Rancière brindou-nos ontem com a sua presença na fundação Calouste Gulbenkian.

Uma vontade servida por uma inteligência

September 30th, 2010

Essa mudança fundamental encontra-se registrada em nova reviravolta da definição de homem: o homem é uma vontade servida por unta inteligência.A vontade é o poder racional a ser desatrelado das querelas dos ideístas e dos coisistas. É também nesses entido que se deve precisar a igualdade cartesiana do cogito. Opor-se-á a esse sujeito pensante que só se conhecia como tal divorciando-se de todo sentido e de todo corpo, um novo sujeito pensante que se experimenta na ação que exerce sobre si mesmo, tanto quanto sobre os corpos. Dessa forma, segundo os princípios do Ensino Universal, Jacotot fazia sua própria tradução da célebre análise cartesiana do pedaço de cera: “Eu quero olhar e vejo. Quero escutar e ouço. Quero tatear e meu braço se estende, passeia pela superfície dos objetos ou penetra em seu interior; minha mão se abre, se desenvolve, se estende, se fecha, meus dedos se afastam ou se aproximam para obedecer à minha vontade. Nesse ato de tateio, só conheço minha vontade de tatear. Essa vontade não é nem meu braço,nem minha mão, nem meu cérebro, nem o tateio. Essa vontade sou eu, é minha alma, é minha potência, é minha faculdade. Sinto essa vontade, ela está presente em mim, ela sou eu; quanto à maneiracomo sou obedecido, não a sinto, não a conheço senão por seus atos [...] Considero a ideificação como um tatear. Tenho sensações quando me apraz: ordeno a meus sentidos fornece-Ias. Tenho idéias quando quero: ordeno a minha inteligência buscá-las, tatear. A mão e a inteligência são escravos, cada uma com suas atribuições.O homem é uma vontade servida por uma inteligência.”

Jacques Rancière

“A Ordem Explicadora”

September 1st, 2010

“É necessário inverter a lógica do sistema explicador. A explicação não é precisa para remediar uma incapacidade de compreender. É, pelo contrário e, esta incapacidade que é a ficção estruturante da concepção explicativa do mundo. É o explicador que precisa do incapaz e não ao contrário, é ele que constitui o incapaz como tal. Explicar qualquer coisa a alguém é, sobretudo, demonstrar-lhe que não a consegue compreender por si próprio. Antes de ser o acto do pedagogo, a explicação é o mito da pedagogia, a parábola de um mundo dividido entre espíritos sabedores e espíritos ignorantes, espíritos maduros e imaturos, capazes e incapazes, inteligentes e estúpidos.”

Jacques Rancière em “O Mestre Ignorante”