Solitude

É preciso ainda ouvir o texto de Lucas de forma a ver que o cavaleiro da fé não encontra absolutamente nenhuma expressão do geral (concebido como moral) capaz de o salvar. Quando, por exemplo, é a igreja que exige este sacrifício de um dos seus membros, encontramo-nos apenas em presença de um herói trágico. A idéia de igreja, com efeito, não difere qualitativamente da de Estado, desde que o Indivíduo pode entrar aí pela mediação, e, quando entrou no paradoxo, não chega à idéia de igreja; encerrado dentro do paradoxo, encontra nele, necessariamente, ou a sua felicidade ou a sua perdição. O herói que obedece à igreja exprime, na sua ação, o geral, e não há ninguém aí, nem mesmo o pai e a mãe, que não o compreendam. Mas ele é o cavaleiro da fé e dá uma resposta diferente da de Abraão; não diz tratar-se de uma prova ou de uma tentação a que foi submetido.

Evita-se, geralmente, citar textos como este de Lucas. Receia-se libertar o homem das cadeias; teme-se o pior logo que o Indivíduo se propõe conduzir-se como tal. Dito de outro modo, pensa-se que existir como Indivíduo é a mais fácil das coisas e por conseguinte interessa constranger os homens a alcançarem o geral. Não partilho nem deste receio, nem desta opinião e pelo mesmo motivo. Quando se sabe, por experiência, que não há nada de mais terrível que existir na qualidade de Indivíduo, não se deve temer afirmar que não há nada de maior; mas também é-se obrigado a exprimi-lo de maneira a não fazer dessas palavras uma ratoeira para o extraviado que é necessário, antes de mais, reconduzir ao geral, ainda quando as suas palavras não deixem lugar ao heroísmo. Se não se ousa citar semelhantes textos, também se não deve ter o atrevimento de mencionar Abraão; e se pensamos que é relativamente fácil existir como Indivíduo, mostramos indiretamente uma inquietante indulgência para conosco; porque se realmente se tem respeito por si próprio e cuidado com a alma, está-se seguro de que aquele que vive sob o seu próprio domínio, sozinho no seio do mundo, leva uma vida mais austera e mais isolada que a de uma jovem no seu quarto. Não faltam pessoas a quem é necessária a sujeição e que, entregues a si próprias, se lançariam como animais selvagens no egoísmo do prazer; nada mais verdadeiro; mas trata-se precisamente de mostrar que não se pertence a esse número, testemunhando que se pode falar com temor e tremor; e deve-se fazê-lo por respeito às coisas grandiosas, a fim de que elas não caiam no esquecimento, por receio das funestas conseqüências que se evitarão se se falar, sabendo que se trata de coisas grandiosas, conhecendo os seus terrores, sem o que nada se conhece da sua grandeza.

Examinemos um pouco mais de perto a tribulação e a angústia contidas no paradoxo da fé. O herói trágico renuncia a si mesmo para exprimir o geral; o cavaleiro da fé renuncia ao geral para se converter em Indivíduo. Já o disse, tudo depende da atitude que se adote. Se supomos relativamente fácil ser Indivíduo, pode-se estar seguro de que não se é cavaleiro da fé: porque os pássaros em liberdade e os gênios vagabundos não são os homens da fé. Pelo contrário, o cavaleiro da fé sabe que é magnífico pertencer ao geral. Sabe que é belo e benéfico ser o Indivíduo que se traduz no geral e que, por assim dizer, dá de si próprio uma edição apurada, elegante, o mais possível correta, compreensível a todos; sabe quanto é reconfortante tornar-se compreensível a si próprio no geral, de forma a compreender este, e que todo o Indivíduo que o compreenda a ele compreende o geral, ambos usufruindo da alegria que a segurança do geral justifica. Sabe quanto é belo ter nascido como Indivíduo que tem no geral a sua pátria, a sua acolhedora casa, sempre pronta a recebê-lo todas as vezes que lá queira viver. Mas sabe, ao mesmo tempo, que acima desse domínio serpenteia um caminho solitário, estreito e escarpado; sabe quanto é terrível ter nascido isolado, fora do geral, caminhar sem encontrar um único companheiro de viagem. Sabe perfeitamente onde se encontra e como se comporta em relação aos homens. Para eles, é louco e não pode ser compreendido por ninguém. E no entanto, louco é o menos que se pode dizer. Se não se olha para ele deste ângulo, então considera-se hipócrita, e tanto mais cruelmente quanto mais alto trepou pelo escarpado caminho.

O cavaleiro da fé conhece o entusiasmo que dá a renúncia ao sacrificar-se pelo geral, quanta coragem é necessária para isso; mas também sabe que há nessa conduta uma segurança que se obtém ao agir pelo geral; sabe que é magnífico ser compreendido por todas as almas nobres, e de tal forma, que aquele que o considera ainda se enobrece a si próprio. Tudo isto ele sabe, e sente-se como se estivesse agrilhoado; desejaria que essa tarefa fosse a sua. Abraão teria assim podido desejar, por vezes, que o seu papel fosse amar Isaac como convém a um pai, amor inteligível para todos, e para sempre inolvidável; podia desejar que a sua tarefa consistisse em sacrificar Isaac no interesse geral, e despertar nos pais o entusiasmo das façanhas gloriosas — sentimo-nos quase espantados ao pensar que estes desejos não passam de crises e como tal devem ser tratados; porque ele sabe que percorre um caminho solitário, que nada fez no interesse geral, mas que simplesmente sofre uma provação e uma tentação. Então, que fez Abraão pelo geral?

Permitam-me falar disto como um homem, com toda a humanidade! Recebe, passados setenta anos, o filho da velhice. Esse bem que outros obtiveram tão rapidamente para o poderem gozar por muito tempo, espera ele setenta anos; e por quê? Porque sofreu uma prova e uma tentação. Não é loucura!
Mas Abraão acreditou; somente Sara sentiu vacilar a sua fé, e induziu Abraão a tomar Agar como concubina; mas por isso teve de a expulsar. Recebe Isaac, e de novo deve sofrer a prova. Conhecia a beleza de exprimir o geral, a magnífica alegria de viver com Isaac. Mas não é essa a sua missão. Sabia que sacrificar semelhante filho ao bem geral era digno de um rei; nele teria encontrado o repouso; e assim como a vogal descansa na consoante que a apóia, do mesmo modo todos aqueles que o celebram teriam encontrado apoio na sua ação, mas tal não é a sua missão — deve sofrer a prova! Aquele famoso capitão romano conhecido por Cunctator conteve o inimigo com contemporizações: mas em comparação, que contemporizador não é Abraão! Porém ele não salva o Estado. Tal é a substância de cento e trinta anos. Quem poderia suportar esta expectativa? O seu contemporâneo, se algum ainda existisse, teria dito: Abraão não se cansou de esperar e finalmente teve um filho; foi preciso tempo! E agora eis que o quer sacrificar. Não estará louco? Se, no entanto, pudesse explicar-se… mas repete sempre que se trata de uma prova. Também Abraão não poderia dizer muito mais, porque a sua vida é como um livro sob o seqüestro divino, e que não se torna juris publici. 11

Isso é que é terrível. Se não o vimos, podemos estar certos deque não se trata de um cavaleiro da fé; mas, se alguém nota, não poderá negar que mesmo o mais sofredor herói trágico tem o ar de ir a um baile, quando comparado com o cavaleiro que só consegue avançar lenta e penosamente. Se o reconhecemos e estamos seguros de que não temos a coragem de o compreender, imagine-se a maravilhosa glória obtida por este cavaleiro que se torna familiar a Deus, amigo do Senhor, e que, para me exprimir numa forma completamente humana, trata por tu o Senhor, a quem até mesmo o herói trágico não fala senão na terceira pessoa. O herói trágico rapidamente terminou o combate; realizou o movimento infinito e agora encontra a segurança no geral. Pelo contrário, o cavaleiro da fé sofre uma constante prova, a cada momento tem uma possibilidade de regressar, arrependendo-se, ao seio do geral, e essa possibilidade tanto pode ser crise como verdade. Não pode pedir a ninguém que o ilumine, porque então colocar-se-ia fora do paradoxo.

O cavaleiro da fé possui, portanto, em primeiro lugar, a paixão necessária para concentrar toda a moral com que rompe num único ponto: o poder ter a certeza de que ama realmente Isaac com toda a sua alma. 12 Se não o faz, está em crise. Por outras palavras, possui paixão suficiente para mobilizar, num abrir e fechar de olhos, toda essa segurança e de tal maneira que nada perde da sua primitiva realidade. Se não pode fazê-lo, permanece no mesmo lugar, porque, então, é-lhe mister recomeçar constantemente. O herói trágico converte também num ponto decisivo a moral que superou teleologicamente; mas encontrou a este respeito um apoio no geral. O cavaleiro da fé só dispõe, em tudo e para tudo, de si próprio: daí o terrível da situação. A maior parte dos homens vive numa obrigação moral que, dia após dia, evita cumprir; mas também nunca alcança essa concentração apaixonada, essa consciência enérgica. Para a obter, o herói trágico pode, em certo sentido, pedir o socorro ao geral, mas o cavaleiro da fé está só em todos os momentos. O herói trágicorealiza essa concentração e encontra o repouso no geral, o cavaleiro da fé despende um esforço constante. Agamemnon renuncia a Ifigênia e dessa maneira encontra o repouso no geral; pode, então, sacrificá-la. Se não realiza o movimento, se no momento decisivo a sua alma, em vez de operar a concentração apaixonada, se perde em ninharias gerais, como o pensar por exemplo que tem outras filhas e que vielleicht 13 poderia ainda suceder das Ausserordentliche, 14 é claro que não é um herói, mas um homem pronto a entrar no manicômio. Abraão também conhece a concentração do herói, ainda que seja nele muito mais difícil, por falta de apoio no geral, mas efetua também um outro movimento pelo qual recolhe a sua alma, pronto para o prodígio. Se não o fez, não é mais que um Agamemnon, na medida em que se pode ainda justificar o sacrifício de Isaac quando não tem utilidade para o geral.

Só o Indivíduo pode decidir-se se está verdadeiramente em crise ou se é um cavaleiro da fé. No entanto, o paradoxo permite mostrar alguns caracteres que quem não se ache nesta situação pode também compreender. O verdadeiro cavaleiro da fé encontra-se sempre no absoluto isolamento; o falso cavaleiro é sectário, quer dizer que tenta sair da estreita vereda do paradoxo para se tornar um herói trágico barato. O herói trágico exprime o geral e sacrifica-se por ele. Em vez de assim atuar, o polichinelo sectário possui um teatro privado, alguns bons amigos e companheiros que representam o geral tão bem como os assessores de A Tabaqueira de Ouro representam a justiça. O cavaleiro da fé, pelo contrário, é o paradoxo, é o Indivíduo, absoluta e unicamente o Indivíduo, sem conexões nem considerações. É essa a sua terrível situação, que o débil sectário não pode suportar. Em lugar de tirar como conclusão, o reconhecer a sua incapacidade para fazer o que é grande e confessá-lo sinceramente, o que não posso deixar de aprovar pois que é afinal a minha atitude, o pobre diabo supõe que juntando-se a alguns dos semelhantes poderá alcançar o termo do seu intento. Mas de modoalgum terá êxito, pois o mundo do espírito não se deixa enganar. Uma dezena de sectários dão-se as mãos; não compreendem absolutamente nada acerca das crises de solitude que esperam o cavaleiro da fé e às quais não pode subtrair-se porque seria ainda mais terrível abrir caminho com demasiada audácia. Os sectários ensurdecem-se uns aos outros fazendo grande algazarra, mantêm afastada a angústia graças aos seus gritos, e este conjunto de gente ululante de medo supõe poder assaltar o céu e trilhar o caminho do cavaleiro da fé; mas este, na solidão do universo, jamais ouve uma voz humana; avança sozinho com sua terrível responsabilidade. O cavaleiro da fé já não encontra outro apoio senão em si próprio; sofre por não poder fazer-se compreender, mas não sente nenhuma vã necessidade de guiar os outros. A sua dor é a sua segurança; ignora o vão desejo, a sua alma é demasiado séria para isso. O falso cavaleiro atraiçoa-se por esse domínio adquirido num momento. Ele não compreende que se outro Indivíduo vai seguir o mesmo caminho deve tornar-se em Indivíduo exatamente da mesma maneira, sem ter, por conseqüência, necessidade de diretivas de ninguém, e, sobretudo, de quem as pretenda impor. Aqui de novo ele sai da senda do paradoxo, não pode suportar o martírio da incompreensão; prefere, o que é muito cômodo, impor-se à admiração do mundo mostrando a sua capacidade de domínio. O verdadeiro cavaleiro da fé é uma testemunha, nunca um mestre; nisso reside a sua profunda humanidade muito mais significativa que essa frívola participação na felicidade ou na desgraça de outrem, honrada com o nome de simpatia, quando afinal não passa de pura vaidade. Quer-se ser simplesmente testemunha: confessa-se implicitamente que ninguém, nem mesmo o último dos homens, tem necessidade de compaixão humana, nem de mostrar o seu aviltamento para que um outro faça disso um pedestal. Mas como esta testemunha não conseguiu facilmente o que ganhou, também não o vende por baixo preço e não tem a baixeza de aceitar a admiração dos homens para lhes oferecer, em troca, o seu desprezo; sabe que a verdadeira grandeza é, igualmente, acessível a todos.

Por conseguinte, ou há um dever absoluto para com Deus, e nesse caso, trata-se do paradoxo atrás descrito, segundo o qual o Indivíduo está, como tal, acima do geral e se encontra em relação absoluta com o absoluto, ou então nunca teve fé porque ela sempre existiu, ou ainda então Abraão está perdido, a menos que se explique o texto de Lucas (14) tal como fazia o elegante exegeta e se interpretem de forma semelhante as passagens correspondentes e análogas.

 

Soren Kierkegaard, Terror e Tremor

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