Psicologia de massas

Um estudante de direito penal descobre, no decorrer dos seus estudos, que os atos antissociais cometidos pelas pessoas não devem ser considerados como crimes, mas como doenças; consequentemente, não devem ser punidos, mas sim curados, e todo esforço deve ser feito para evitar a recaída. Por este motivo, desiste dos estudos de Direito e dedica-se à Medicina. A sua atividade passa do domínio formal da ética para o domínio prático e objetivo. Compreende depois que a sua atividade médica terá de
utilizar primeiramente alguns métodos não-médicos. Desejaria, por exemplo, suprimir o uso da camisa-de-força para doentes mentais, substituindo-a por uma educação preventiva. Mas é forçado, embora contra os seus princípios, a recorrer à camisa-de-força; isto porque, havendo muitos doentes e não podendo controlar todos, utiliza ainda os métodos antigos e precários, embora sempre tendo em mente que precisam ser
substituídos por melhores.
Com o passar dos anos, o trabalho torna-se superior às suas forças. Não tem
preparo suficiente para assumi-lo; conhece-se muito pouco o domínio das doenças mentais, que são numerosas, pois a educação recebida as cria diariamente. Como médico, deve proteger a sociedade das doenças mentais. Não pode pôr em prática as suas boas intenções. É forçado a voltar aos velhos métodos que ainda há anos condenava severamente e pretendia substituir por outros melhores. Recorre cada vez mais à camisa-de-força; os seus planos educacionais fracassam; seu esforço em se tornar um médico que previne as doenças ao invés de curá-las fracassam também, sendo por isso forçado a recorrer às medidas antiquadas.
Tendo fracassado o tratamento dos delinquentes como doentes, é obrigado a mandar enclausurá-los de novo. Mas não admite esse fracasso, nem a si próprio nem aos outros. Para isso, falta-lhe a coragem necessária. Ou talvez nem tenha consciência disso, E acaba por afirmar disparates como este: “A utilização de camisas-de-força e prisões para doentes mentais e delinquentes representa um grande progresso na aplicação dos meus conhecimentos médicos. Esta é a verdadeira medicina; representa a realização dos meus objetivos iniciais!”.
Este exemplo pode ser integralmente aplicado à “instituição da democracia
soviética”, dezesseis anos depois da “instituição da democracia soviética”. Para compreendê-lo, basta confrontá-lo com a teoria da “democracia social” e da “abolição do Estado”, exposta por Lenin em O Estado e a Revolução. A justificação apresentada 199pelo governo soviético para tal medida não é tão importante neste contexto. Uma só frase dessa justificação, publicada no Rundschau de 1935 (n.° 7, p. 331), mostra que com esse ato, independentemente de ser ou não fundamentado, o conceito leninista de
democracia social foi anulado, Aí se escreve: A ditadura do proletariado foi sempre o único poder real do povo. Até o presente, realizou com êxito as suas duas tarefas principais: a destruição da classe dos exploradores, sua expropriação e supressão, e a educação socialista das massas. A ditadura do proletariado mantém-se inalterada… Se foram realizadas com êxito a aniquilação da classe exploradora e a educação socialista das massas, e se, simultaneamente, a ditadura do proletariado se mantém “inalterada”, estamos certamente diante do maior dos disparates. Se estão preenchidas
todas as condições necessárias, por que se mantém inalterada a ditadura do
proletariado? Contra quem ou contra o que esse regime é dirigido, se deixou de haver exploradores, e se as massas já foram educadas para assumirem responsabilidade pelas funções sociais? O aparente disparate de tal formulação esconde um significado inacreditável: a ditadura se mantém, já não contra os exploradores de antigamente, mas contra as próprias massas. O Rundschau continua: “Esta fase superior do socialismo, a aliança dos operários e dos camponeses, confere um conteúdo novo e superior à ditadura do proletariado, como democracia dos trabalhadores. Este novo conteúdo exige também formas novas, isto é, … a transição ao direito de voto direto e secreto de todos os trabalhadores.”
Recusamos o verbalismo: a ditadura do proletariado (que, com o tempo, deveria ceder lugar à autogestão das massas humanas) mantém-se a par da democracia “mais democrática”. Isto é um disparate do ponto de vista sociológico, é a confusão de todos os conceitos sociológicos. Trata-se unicamente de responder à questão fundamental: teria sido realmente atingido o objetivo principal do movimento socialista revolucionário
de 1917, ou seja, a abolição do Estado e a instituição da autogestão social? Em caso afirmativo, deve haver uma diferença considerável entre a “democracia soviética” de 1935 e a “ditadura do proletariado” de 1919, por um lado, e as democracias parlamentares burguesas, como existem na Inglaterra e nos Estados Unidos, por outro lado. Fala-se de um “avanço da democratização” do sistema soviético. Mas como? Até agora tínhamos a impressão de que, quanto à sua natureza, à concepção dos seus fundadores, e tal como realmente era no início, a “ditadura do proletariado” é absolutamente idêntica à democracia social (democracia proletária). Mas se ditadura do proletariado é a mesma coisa que democracia social, então uma democracia soviética não pode ser instituída dezesseis anos depois do estabelecimento da democracia social, e nem se pode falar de um “avanço da democratização”. Falar de “instituição da democracia” significa,  inegavelmente, que até então não houve democracia social e que a ditadura do proletariado não é idêntica à democracia social. Além disso, é absurdo
afirmar que a democracia social é o sistema “mais democrático” que existe. Será que a democracia burguesa é apenas “um pouco” democrática, enquanto que a democracia social é “mais” democrática? O que significa “um pouco” e o que significa “mais”? A democracia burguesa parlamentar é, na realidade, uma democracia meramente formal; nela, as massas humanas elegem os seus representantes mas não se governam pelas suas próprias organizações de trabalho. E a democracia social de Lenin devia ser uma forma qualitativamente diferente de regulação social, e não simplesmente um tipo de melhora quantitativa do parlamentarismo formal. Devia substituir a ditadura do Estado proletário pela autogestão efetiva dos trabalhadores. A existência paralela da “ditadura do proletariado” e da autogestão das massas trabalhadoras é uma impossibilidade. Como proposta política, é confusa e sem sentido. Na realidade, é a ditadura da burocracia do partido que governa as massas, sob o disfarce de um parlamentarismo democrático formal. Nunca se deve esquecer que Hitler sempre se baseou — e com muito êxito! — no ódio justificado das massas humanas às democracias ilusórias e ao sistema parlamentar.
Em vista das manobras políticas dos comunistas russos, o poderoso lema fascista, “unidade do marxismo e do liberalismo parlamentar burguês”, tinha necessariamente que impressionar muito! Por volta de 1935, frustraram-se cada vez mais as esperanças que amplas massas humanas em todo o mundo tinham depositado na União Soviética. Não é possível solucionar problemas reais com ilusões políticas. É necessário ter a coragem para falar abertamente das dificuldades. Não é impunemente que se estabelece a confusão sobre o significado de alguns conceitos sociais bem definidos. Na instituição da “democracia soviética”, a participação das massas na administração do Estado era sublinhada, o protetorado das indústrias em relação às respectivas organizações governamentais tornava-se explícito, e o fato de os conselhos de trabalhadores e camponeses terem uma voz “dentro dos comitês populares era exaltado. No entanto, a questão não é essa; o importante é o seguinte:
Qual é, na realidade, a participação das massas na administração do Estado? Essa participação representa a assunção progressiva das funções administrativas, tal como se preconiza na democracia socialista? Que formas assume essa “participação”? O protetorado formal de uma indústria em relação à autoridade do Estado não significa autogestão. Ê a organização governamental que controla a indústria ou vice-versa?
A existência de conselhos com voz “dentro” dos comitês populares significa que eles são apêndices ou, na melhor das hipóteses, órgãos executivos dos comitês, ao passo que Lenin preconizava o seguinte: substituição de todas as funções burocráticas oficiais por sovietes, cada vez mais difundidos entre as massas. Se é “instituída” a democracia soviética ao mesmo tempo que a ditadura no proletariado é “consolidada”, isso só pode significar que o objetivo, a extinção progressiva do Estado proletário e a ditadura do proletariado, foi deixado de lado.
Com base nos fatos disponíveis e na avaliação destes fatos, a instituição da
“democracia soviética”, dezesseis anos após a instituição da democracia soviética, significa que não foi possível realizar a transição de um regime estatal autoritário para o sistema de autogestão da sociedade. Essa transição não se concretizou porque a estrutura biopática das massas e os meios para efetuar uma mudança básica nessa estrutura não eram conhecidos. Não há dúvidas de que a expropriação e submissão dos
capitalistas individuais foi um sucesso total; mas a educação das massas, a tentativa de torná-las capazes de abolir o Estado — que para elas era apenas um opressor —, de realizar a sua “extinção” e de assumir as suas funções, não foi bem sucedida. Por este motivo, gradualmente foi-se extinguindo a democracia social que começara a se desenvolver nos primeiros anos da revolução. Por este motivo, foi necessário consolidar
o aparelho de Estado, que ainda não havia sido substituído, de modo a assegurar a existência da sociedade. A “instituição do sufrágio universal”, em 1935, significa, além de um deslocamento de ênfase política para a massa dos camponeses kolkhoz, a reinstituição da democracia formal. Em essência, isso significava que o aparelho de Estado burocrático, que se tornava cada vez mais poderoso, conferia um direito parlamentar sem significado a uma massa humana que não fora capaz de destruir esse
aparelho e que não aprendera a administrar seus próprios assuntos. Não existe, na União Soviética, um único indício de que o menor esforço esteja sendo feito para preparar as massas trabalhadoras para assumirem a administração da sociedade. Ensinar a ler e a escrever, promover a higiene e transmitir conhecimentos técnicos são coisas necessárias, mas nada têm a ver com a autogestão da sociedade. Tais coisas, Hitler também faz.
O desenvolvimento da sociedade soviética caracterizou-se, portanto, pela.
constituição de um novo aparelho de Estado autônomo que adquiriu a força suficiente para, sem se sentir ameaçado, dar a ilusão de liberdade às massas populacionais, exatamente como o fez o nacional-socialismo de Hitler. A instituição da democracia soviética não representou um progresso, mas, sim, um dos muitos retornos a antigas formas de vida social. Que garantias temos de que o aparelho de Estado da União Soviética destruirá a si mesmo, educando as massas para administrarem seus próprios assuntos? Neste contexto, não se deve ser sentimental: a revolução russa encontrou um obstáculo do qual ela não tinha conhecimento e que foi, por isso, encoberto por ilusões.
Esse obstáculo foi a estrutura humana do homem, uma estrutura que se tornou biopática no decorrer de milhares de anos. Seria absurdo atribuir a “culpa” a Stalin ou a qualquer outro. Stalin foi apenas um instrumento das circunstâncias. Só no papel, o processo de desenvolvimento social aparece fácil e alegre como um passeio no bosque. A dura realidade é que ele depara incessantemente com problemas novos, até então desconhecidos. Resultam retrocessos e catástrofes. É necessário aprender a pressenti-
los, a conhecê-los e a superá-los. Mas subsiste uma censura: um projeto social promissor deve ser incessantemente examinado com o maior rigor. É preciso decidir honestamente, com objetividade, se o projeto em si estava errado, ou se foi esquecido algum elemento na sua concretização; nesse caso, é sempre possível alterar conscientemente o projeto, aperfeiçoá-lo e controlar melhor o seu desenvolvimento. É necessário, mobilizar o pensamento de muitas pessoas, de forma a ultrapassar os entraves a uma evolução para a liberdade. Mas enganar as massas com ilusões é um
crime contra a sociedade. Se um dirigente de massas honesto chega a uma situação, problemática, para a qual não consegue encontrar solução, o que tem a fazer é demitir-se, cedendo o seu lugar a outro. Caso não seja possível encontrar um substituto, é preciso esclarecer a comunidade sobre as dificuldades surgidas e esperar, junto dessa comunidade, que se apresente uma solução, quer pela força dos acontecimentos, quer por descobertas individuais. Mas o politiqueiro teme essa honestidade.
Em defesa do movimento internacional de trabalhadores, deve-se enfatizar que sua luta por uma democracia autêntica e real — e não uma simples democracia retórica — foi incrivelmente dificultada. Deu-se razão àqueles que sempre afirmaram: “A ditadura do proletariado é uma ditadura igual a todas as outras. Isso se tornou claro, pois, por que somente agora a democracia foi ‘instituída’?” Também não há razão para nos alegrarmos com os elogios tecidos pelos socialdemocratas à União Soviética (“introspectivo”, “democracia”, “finalmente”). Tais elogios eram uma pílula amarga, uma formalidade. Muitas vezes, um retrocesso objetivo no processo de evolução é necessário e tem de ser aceito, mas não há justificação para a tentativa de camuflar esse retrocesso com ilusões, utilizando para isso os métodos fascistas da mentira. Se, ao apresentar a
“Nova Política Econômica (NPE)”, no ano de 1923, Lenin tivesse dito: “Passamos de uma fase inferior da ditadura do proletariado para uma fase superior, A instituição da NPE representa um enorme passo à frente no caminho do comunismo”; tal afirmação teria imediatamente destruído toda a confiança no governo soviético. Ao apresentar a NPE, Lenin disse:
É triste, é cruel, mas por enquanto não o podemos evitar. A economia
imposta ao comunismo pela guerra causou dificuldades imprevistas. Temos de dar um passo atrás, para podermos voltar a avançar com segurança. É certo que restituímos alguma liberdade à empresa privada — não tivemos outra escolha —, mas sabemos muito bem o que estamos fazendo.
Quando foi “instituída a democracia soviética”, faltou essa clareza e naturalidade.
No entanto, em 1935, elas teriam sido mais necessárias do que nunca: teriam ganho milhões de adeptos, em todo o mundo; teriam mobilizado o pensamento; teriam talvez até evitado o pacto com Hitler de que os trotskistas foram responsabilizados. Mas isso não aconteceu, e a democracia de Lenin acabou no novo nacionalismo russo. O Jornal Vermelho de Lenin grado, órgão central dos bolcheviques russos, afirmava, em 4 de fevereiro de 1935: Todo o nosso amor, a nossa fidelidade, a nossa força, o nosso coração, o nosso heroísmo, a nossa vida — tudo para você, aceite-o, oh grande Stalin, tudo é seu, oh líder da nossa grande pátria! Comande seus filhos. Eles podem movimentar-se no ar e debaixo da terra, na água e na estratosfera . Homens e mulheres de todas as épocas e de todos os povos se lembrarão de seu nome.

Como se os filhos da “grande pátria alemã” ou dos Estados Unidos não pudessem fazer o mesmo! como o mais sublime, o mais forte, o mais sábio e o mais bonito. Seu nome está escrito em cada fábrica, em cada máquina, em cada canto do mundo, em cada coração humano. Quando a minha amada esposa me der um filho, a primeira palavra que ensinarei a ele será: “Stalin”. Na edição de 19 de março de 1935, o Pravda (citação do Rundschau, n.° 15, p.787, 1935) insere um artigo intitulado “Patriotismo Soviético”, no qual o “patriotismo soviético” começa a fazer concorrência ao “patriotismo fascista”: O patriotismo soviético — um sentimento inflamado de amor ilimitado, de devoção incondicional à pátria, da mais profunda responsabilidade pelo seu destino e pela sua defesa — remonta às origens mais profundas do nosso povo.
Nunca e em parte alguma foi tão sublime o heroísmo da luta pela pátria. Toda a história gloriosa e sem paralelo da União Soviética mostra do que são capazes os trabalhadores quando se trata da sua pátria. No trabalho ilegal, nas, barricadas, na movimentação da ágil cavalaria de Budenny, no fogo dos primeiros exércitos da revolução, no ritmo das fábricas da indústria socialista, no trabalho das cidades e aldeias, na atuação do Partido Comunista, em tudo isto soou e continua a soar o grande cântico imortal da nossa querida terra, liberta e reconstruída.
A Rússia soviética, o país criado e educado por Lenin e Stalin! Acariciada
pelo brilho da primavera nascida com a revolução de outubro! Os fios de água correram com mais força, as correntes até então detidas irromperam, todas as forças do povo trabalhador se puseram em movimento para abrir o caminho para novos desenvolvimentos históricos. A grandeza da União Soviética, sua fama e seu poder irradiaram de cada canto do país. As sementes de uma vida rica e de uma cultura socialista espalharam-se rapidamente. Elevamos a bandeira vermelha do comunismo a novas alturas e rompendo os longínquos céus azuis. O patriotismo soviético é o amor do nosso povo pela terra que foi arrancada pelo sangue e pelas armas às mãos dos capitalistas e dos latifundiários; é o apego à vida maravilhosa, cujo criador é o nosso grande povo; é a vigília poderosa e combativa, a oeste e leste; é a dedicação à grande herança cultural do gênio humano que tão bem floresceu na nossa pátria é em nossa pátria apenas [o sublinhado é meu], Não admira que acorram estrangeiros às fronteiras da União Soviética, gente de outras civilizações que se curva perante o último refúgio da cultura, perante o Estado da bandeira vermelha!
União Soviética — primavera da humanidade! O nome de Moscou soa aos
ouvidos dos operários, dos camponeses, de todos os homens sinceros e cultos do mundo, com um sino de rebate e como uma esperança num futuro melhor e na vitória sobre a barbárie fascista.
…No nosso país socialista, os interesses do povo são inseparáveis dos
interesses do país e do seu governo. O patriotismo soviético obtém sua inspiração do fato de que o próprio povo, sob a liderança do Partido Soviético, moldou a sua própria vida. Obtém sua inspiração do fato de que só agora, sob o poder soviético, o nosso belo e rico país tenha sido aberto aos trabalhadores. E o apego natural ao nosso país natal, ao nosso solo natal, aos céus sob os quais, pela primeira vez vimos a luz deste mundo, cresce e se torna poderoso, um orgulho pelo nosso país socialista, pelo nosso grande Partido Comunista, pelo nosso Stalin.
As ideias do patriotismo soviético fazem nascer e crescer heróis, cavaleiros e milhões de guerreiros corajosos, dispostos a precipitar-se como uma avalanche destruidora sobre os inimigos da pátria, varrendo-os da face da Terra. No próprio leite materno é inculcado à juventude o amor à pátria, Temos o dever de criar novas gerações de patriotas soviéticos para quem os interesses da nossa terra estejam acima de tudo e sejam mais caros do que a própria vida, ..
…É com o maior cuidado, habilidade e força criadora que nutrimos o
grande espírito invencível do patriotismo soviético. O patriotismo soviético é uma das manifestações extraordinárias da revolução de outubro. Quanta força, audácia, vigor juvenil, heroísmo, emoção, beleza e movimento não existem nele! O patriotismo soviético é uma poderosa chama no nosso país. É uma força impulsora da vida. É ele que aquece os motores dos nossos tanques, dos aviões de bombardeio, dos contratorpedeiros, e carrega as nossas armas. O patriotismo soviético vigia as nossas fronteiras, onde inimigos infames, cuja derrota é certa, ameaçam a nossa vida pacífica, o nosso poder e a nossa glória…
Essa é a peste emocional da política. Nada tem a ver com o amor natural à pátria. É a ridícula efusão sentimental do escritor que não conhece meios objetivos para entusiasmar os seus leitores. É comparável à ereção de um homem impotente, produzida à força pelo uso da ioimbina. E as repercussões sociais desse tipo de patriotismo são comparáveis à reação de uma mulher saudável a um ato sexual que só foi possível com o recurso da ioimbina.
Esse “patriotismo soviético” foi talvez necessário, depois de passado o entusiasmo revolucionário, como condição para o posterior combate ao “patriotismo de Wotan”. Mas a democracia do trabalho nada tem em comum com essa espécie de “patriotismo”. Pode-se mesmo concluir que fracassou a tentativa de dirigir racionalmente a sociedade, quando começa a se fazer sentir esse tipo de patriotismo de ioimbina. O amor do povo à
sua pátria, o apego à terra e a devoção à comunidade que fala a mesma língua são experiências humanas muito sérias e muito profundas para serem utilizadas como objeto de irracionalismo político. Essas formas de patriotismo de ioimbina não solucionam nenhum dos problemas concretos que a comunidade trabalhadora enfrenta, e nada têm em comum com a democracia. E mais: essas explosões ridículas de estilo patético são um
sinal seguro do medo de assumir responsabilidades. Não queremos ter nada a ver com isso.

Wilhelm Reich, A psicologia de massas do fascismo

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