Entrevista a TIAGO SOUSA a propósito de WALDEN POND’S MONK

Entrevista a TIAGO SOUSA a propósito de WALDEN POND’S MONK (parte desta conversa está na Elle de Junho)
by Inês Fonseca Santos on Thursday, 28 April 2011 at 16:46

IFS. Tiago, tu tens estado envolvido em vários projectos musicais, com sonoridades diferentes, e a primeira pergunta que te quero colocar tem precisamente a ver com a tua identidade enquanto músico, sobretudo porque também tens “caminhado” sozinho. É possível definir-te apenas como pianista? Ou a palavra é claramente insuficiente?

TS. Não diria que a palavra é insuficiente, diria antes que é excessiva. Se considerarmos que um Pianista é alguém tecnicamente preparado para dominar o seu instrumento, e que na sua vertente de intérprete estaria preparado para tocar peças de diferentes graus de dificuldade e em diversos estilos ou enquanto compositor alguém capacitado para compreender os fenómenos da harmonia e as capacidades do instrumento, não me consideraria Pianista. Poderei dizer que estou mais próximo da atitude, por exemplo, do Erik Satie, que se auto-denominava “gymnopedist”. O meu trajecto tem tido, de facto, diversas facetas, o que sinto que está ligado ao facto de andar à procura dessa tal identidade. Visto que o meu método é empírico, acabo por não encontrar outra forma de evoluir do que me ir metendo nas coisas e ver aonde isso me leva. Assumo esse risco. Acabei por me focar mais no piano nestes últimos anos, dado que era o instrumento que me preencheu grande parte da infância através da minha avó que é professora de piano. Na adolescência, acabei por me desligar deste instrumento mas, no momento em que me comecei a sentir um pouco cansado dos formatos mais “rock” que andava a explorar e que comecei a sentir que não andava a fazer mais do que imitar os meus ídolos, achei que era o instrumento certo para, por um lado, me voltar para dentro de mim e buscar as idiossincrasias que me compõem; por outro lado, pela falta de formação académica, iria em busca da minha própria forma de abordar o instrumento.

IFS. O teu novo disco, logo no título, remete para a obra de Henry David Thoreau. O que te ensinou ele?

TS. O meu disco é uma homenagem à obra e à vida de Thoreau. Mais do que me ensinar, o Thoreau inspirou-me! Desde que li as primeiras palavras senti uma imediata identificação com os valores de liberdade, justiça e com o seu sentido emancipatório. Focado numa moral individual que busca as necessidades mais elementares da existência humana sempre retorquindo os efeitos nefastos da sociedade contemporânea mais voltada para o materialismo e para o despotismo. Existe também uma dimensão épica e mitológica na sua prosa que a tornam incrivelmente bela e poética. Julgo que foram todos estes factores que me apaixonaram de imediato pelos seus livros.

IFS. E o que é que, dessa aprendizagem com Thoreau, dessa inspiração, está neste disco?

TS. Neste processo de identificação encontrei como que uma base teórica ou filosófica para a minha abordagem estética e ética enquanto pessoa e artista. Sinto que existem vários valores que Thoreau evoca que já mapeavam o percurso a que aspirava. A sua paixão pela natureza e pelo estado selvagem encontram eco na minha confiança no meu instinto musical, que relega para segundo plano a compreensão científica dos fenómenos da música. Encontro nele a mesma busca interior a que me tenho dedicado para compreender melhor a minha própria natureza e as minhas aspirações. O meu gosto e apreço pela simplicidade está em muito ligado ao seu. Assim como toda a aura quase impressionista, quase romântica que ele aplica na sua escrita e que é um universo muito marcante na minha música. Foi uma espécie de encontro comigo mesmo pela mão de outra pessoa. Esse processo de identificação foi muito forte e levou-me a tirar grandes conclusões sobre mim próprio. Este disco acaba a consumação de uma série de convicções. É quase um manifesto artístico que representa uma espécie de ponto zero. No sentido em que me encontro num estado de maturação das minhas ideias e das minhas experiências e me sinto mais preparado para afirmar quem sou através da música que faço.

IFS. Como se compõe música com as palavras e a filosofia de outro criador na cabeça?

TS. A música, enquanto forma de expressão artística, tem uma capacidade de comunicação intrínseca. Claro que o universo da música dita popular está muito ligado à palavra cantada e estamos mais habituados a absorver esse código. No entanto, uma música sem palavra acaba por afirmar muito mais coisas dada a sua ambiguidade, que a torna mais passível de diferentes interpretações e potencialmente menos dogmática e doutrinária do que a música que se afirma pela palavra. Claro que eu estou aqui a fazer um manifesto bastante concreto, mas não é um manifesto que queira afirmar-se sinteticamente. É um manifesto que se afirma acima de tudo esteticamente ganhando um carácter mais abstracto. Em potencial, ganha uma vida própria a partir do momento que é assimilada por um outro ouvinte que pode estar ou não contextualizado com a obra do Thoreau, mas terá sempre algo a extrair da experiência. Não estou à espera que todas as pessoas que oiçam o disco acabem a ler Thoreau ou a ir viver para os bosques, nem eu próprio me quero afirmar como um seguidor de Thoreau no sentido teológico da coisa. Em suma, as palavras serviram mais como inspiração, mas não pretendem prender a música.

IFS. O disco é editado pela americana Immune Recordings. Que vantagens traz este facto?

TS. É sempre bom podermos ter um disco que em potencial estará disponível para um número mais alargado de pessoas – já que a Immune é distribuída mundialmente. Mas todos sabemos que saem milhares de discos todos os meses e o simples facto de ser editado por uma editora norte-americana não significa nada em si. Estou mais focado e satisfeito no carácter da Immune: uma pequena editora gerida por uma pessoa que acredita no que está a fazer e no valor intrínseco da música que edita. Claro que por outro lado estou empenhado nisto e não tenho outra forma de sustento… Portanto só posso esperar que o disco seja mais um passo para conseguir ir levar a minha música até mais pessoas um pouco por todo o lado e que isso possibilite que volte a viajar para tocá-la para essas pessoas, tal como aconteceu no passado, quando toquei em países como Alemanha, França ou Bélgica.

IFS. Vais dar vários concertos em breve. O que acrescenta o palco a um músico como tu?

TS. O palco é o meu habitat. É no palco que acredito que a música ganha vida e se justifica verdadeiramente. O que se pode esperar de um concerto meu é que seja um processo muito transparente, sem grandes artefactos ou artifícios. Estarei algumas vezes a solo, outras vezes com o Baltazar e o Ricardo consoante a ocasião proporcione. No futuro próximo, estarei dia 28 de Abril no Teatro A Barraca, na primeira parte do “They’re Heading West”, um ensemble com membros de Julie & The Carjackers, Minta e com a Mariana Ricardo. Dia 18 de Maio no Fórum Barreiro e no dia 20 de Maio no Museu da Música. Mas o ideal será visitarem o meu site www.tiagosousa.org e adicionarem-se à newsletter, pois haverá mais novidades sobre em concertos em breve.

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