Como se chega a desobedecer?

<<Assim, no plano político, na perspectiva da classe dominante, não tenho dúvida que uma das formas de produzir a indiferença e a inacção é desenvolver um discurso técnico sobre a realidade em que vivemos e de o desenvolver nos aparentes limites da economia, num incessante mantra de modelos de crescimento e produtividade, de taxas de lucro e tendências dos mercados. Pois, sem se poder caracterizar a realidade no interior do discurso dominante, como é que se pode produzir o desejo de a transformar? Por outro lado, o ruído permanente da informação decomposta é outra das formas maravilhosas de educar a indiferença, a inacção, numa sucessão de eventos espectaculares que logo se desintegram para serem rapidamente substituídos… Mas isto são banalidades.

As classes dominantes da história sempre usaram os instrumentos que tinham à sua disposição para sujeitar as classes dominadas, o que é estranho, ou talvez não seja assim tanto, é que as classes dominadas não se sublevem, nem compreendam que, sendo o grande número, se podem sublevar: o poder da classe dominante precisa da colaboração das classes subalternas para ser exercido e gozado.

Creio que se aprende, pouco a pouco e desde crianças, a gozar a miséria, a submissão, o sofrimento, a resignarmo-nos a eles, a aceitá-los como uma inevitabilidade da anatomia, da organização histórica das sociedades, da suposta natureza humana, e assim acaba-se a desprezar a vida, a única que temos e teremos, a vendê-la na sua força e inteligência, na sua electricidade vital, para meramente sobreviver, como se a simples duração do corpo fosse uma vitória… aliás, chega-se a um ponto tão nauseante que até se julga que a única forma de gozar a vida é da forma destrutiva, mesquinha e parasitária dos membros da classe dominante.>>

Pedro Bravo, Entrevista ao Jornal Mapa sobre o seu mais recente livro “Manual de Resistência Civil”

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