tunnel!

January 7th, 2011

Pão

January 7th, 2011

pão 01 by tiagosousa

One extract from a rehearsal of the new trio I’ve been working with travassos and pedro sousa.  we’ll be live at festival rescaldo on 21st january.

“you’re blaming the victims of the violence for that violence”

December 26th, 2010

“you’re blaming the victims of the violence for that violence”
Durante os protestos que têm sido movidos pelos estudantes ingleses contra o brutal aumento das propinas do ensino público desse país, um incidente, no mínimo, perturbante tomou lugar. Um dos protestantes, Jody McIntyre, foi arrastado pela polícia londrina da sua cadeira de rodas onde se encontra devido a uma paralisia cerebral que lhe afecta o controlo dos seus membros. O acontecimento foi filmado por um telemóvel e colocado a circular na internet e rapidamente fez história noticiosa e chegou aos principais meios de comunicação entre eles a BBC que suporta este triste, mas esclarecedor, espectáculo televisivo.

3 pontos levam à minha reflexão:

1. O espectáculo televisivo ou o tiro que sai pela colatra:

Talvez a BBC tivesse alguma consciência do que estaria a promover. Segundo se entende pela entrevista, pesquisaram o blogue de Jody e foram rápidos a tomar o seu próprio juízo sobre o caso: Jody é um revolucionário. E um revolucionário aos olhos deste jornalista aparentemente significa um tipo de cocktail molotov nas mãos a atentar indiscriminadamente contra o Estado. Curioso que tão rapidamente se lance no julgamento de uma pessoa que tem à sua frente e seja tão cauteloso quando no início da entrevista comenta as imagens onde vemos claramente a violência, desproporcional e desrazoável, de dois polícias a agredir um rapaz numa cadeira de rodas usando palavras como “aparentemente”. Mas talvez não tivesse ocorrido ao jornalista que Jody fosse um tipo com um discurso tão esclarecido e perspicaz. O que estaria aparentemente montado para servir de uma mera peça televisiva sobre como o acessório se torna principal, ganha uma importância maior quando o porta-voz do momento consegue transformar aqueles oito minutos televisivos focados na importância das questões que estão imanentes a toda esta circunstância.

2. A criminalização dos movimentos contestatários:

Não é algo que nos seja novo. São constantes os relatos deste tipo de manifestações através da violência que geraram, facilmente relegando para um plano secundário os motivos e as causas que levam estas pessoas a assumir um papel contestatário e a virem para a rua mostrar a sua indignação. Devemos ter em consideração um lugar-comum que nos diz que não devemos tomar o todo pela parte e estou em crer que a maioria destas pessoas não está interessada em atentar gratuitamente contra a propriedade alheia, ou a segurança de terceiros, mas estas pessoas estão indignadas e, na realidade, têm bons motivos para o estar. Não me parece que a melhor forma de apagar uma fogueira seja atirando gasolina para cima, e é precisamente isso que simboliza um exército de polícias especialmente treinados para situações de confronto directo, em que conceitos como pedagogia e mediação não serão o principal foco desses treinos. Aqueles homens vêem os cidadãos que protestam como o inimigo e estão prontos para atacar qualquer foco de violência à sua nascença. Está à vista a contradição e o precedente que fica criado.
Julgo que ninguém de bom senso está interessado em promover a violência, mas quando esta violência é reactiva − reactiva ao confronto que estes verdadeiros exércitos “anti-motim” incitam, reactiva às medidas governamentais cuja falta de razoabilidade e sentido de justiça não são mais do que violência “limpa” e “institucional”; encontramos, não digo “motivos” mas, pelo menos, “razões” para que estas pessoas, que sentem a necessidade legitima de fazer ouvir a sua voz, constantemente silenciada pelo fosso que se cria perante as forças oligárquicas que regem a nossa sociedade contemporânea, acabem por encontrar justificações para a violência.
O facto é que tão criminoso se pode considerar o amotinado que não mede a violência de um determinado acto, como o polícia e o parlamentar que conscientes da sua responsabilidade e da sua força julgam poder exercê-la de modo desmedido sem consideração pelas pessoas que, no fundo, deveriam ser o seu maior motivo de preocupação. As pessoas que também constituem a sociedade e que aos olhos dos valores que regem os nossos princípios constitutivos são iguais entre iguais.

3. A necessidade de assumirmos conscientemente os nosso actos:

Por fim, o ponto que mais me interessa em toda esta questão. A circunstância que faz toda a diferença para que o que se poderia considerar como lixo televisivo e ruído informativo tornar-se num potente manifesto político contra as diversas forças de coerção que nos minam o dia-a-dia. E tão simplesmente porque aquela pessoa estava consciente. Consciente dos motivos pelos quais estava presente nas ruas de Londres naquele dia. Consciente do tipo de armadilha que lhe estava montada quando foi convidado a falar em directo para um canal que transmite para milhares de pessoas no seu país e além fronteiras. A sua motivação é firme e ficou bastante clara. Não se trata de um “terrorista”, de alguém que esteja interessado em fazer valer a sua posição em detrimento da posição dos demais. Está a lutar por um direito que lhe foi atribuído enquanto cidadão e que é considerado pela própria constituição como justo: o acesso à educação. E não só é justo como essencial para toda a lógica que temos na construção civilizacional da nossa era e de que tanto nos orgulhamos. Apesar dos esforços vãos que o jornalista faz para tentar encontrar contradição naquela “personagem-tipo”, só encontra a convicção que move aquele cidadão. Convicção que só pode ser gerada através da reflexão. Todo o movimento insurreccional encontra-se munido de uma força inamovível quando tomado em consciência e com sentido de justiça pelos seus participantes. A brecha está aberta e é necessário que cada um de nós faça uso das ferramentas que nos foram postas nas mãos pelos nossos antepassados e não esqueçamos a História e a origem dessas mesmas ferramentas!

John Stuart Mill, um liberal e parte daquilo que entendemos hoje como o código genético dos valores que regem a criação e emancipação do povo do Reino Unido, escreveu um dia no seu famoso livro “Da Liberdade de Pensamento e de Expressão”:

“Vamos, pois, supor que o governo está inteiramente de acordo com o povo e que nunca pensa em exercer qualquer poder de coerção, a menos que esteja de acordo com o que crê seja a voz dele. Mas eu nego o direito do povo de exercer tal coerção, quer por si próprio quer pelo seu governo.
O Poder em si é ilegítimo. O melhor governo não tem mais direito a ele do que o pior.
É tão pernicioso, ou mais ainda, quando exercido de acordo com a opinião publica do que quando esta se lhe opõe.
Se todos os homens fossem da mesma opinião e apenas uma pessoa tivesse opinião contrária, aqueles não teriam mais justificação para silenciar essa pessoa do que esta, se tivesse o Poder, teria justificação para os silenciar.”

wikileaks na ordem do dia

December 8th, 2010

“a opinião que se tenta eliminar pela autoridade pode muito possivelmente ser verdadeira. Aqueles que desejam suprimi-la negam, evidentemente, a sua verdade, mas eles não são infalívies. Não têm qualquer autoridade para resolver a questão em nome de toda a humanidade e excluírem todas as outras pessoas do meio de julgamento.”
John Stuart Mill

http://www.ionline.pt/conteudo/92692-portugal-fccn-recusou-registo-wikileaksorgpt

a cidade dormitório que não quer dormir

December 1st, 2010

Miguel Manso

Barreiro, uma ilha à espera de ser redescoberta

24.11.2010 – Vítor Belanciano
diminuiraumentar
O que é que o Barreiro tem? Um ambiente experimental urbano, festivais, música, uma zona industrial com inúmeras possibilidades de reconversão e uma identidade assentes no associativismo. O que é que o Barreiro não tem? Talvez a capacidade para estimular o potencial que tem entre mãos

Uma cidade é feita de muitas camadas. Comecemos pela pele. O Barreiro é dormitório. Subúrbio. Viagem de barco de vinte minutos a partir de Lisboa. Metrópole de gases poluentes expelidos por fábricas e de oficinas da CP com aspecto caduco. Cidade de gente cansada que mal dorme e trabalha em Lisboa num escritório. A pele, o senso comum, os chavões, não falseiam.

Mas não revelam tudo. A pele revela apenas um ponto de vista. Observemos melhor, como o arquitecto é capaz de perceber as possibilidades de uma casa mesmo se para os leigos ela parece estar em ruína. O Barreiro possui a área com mais potencialidade de reconversão da zona metropolitana, bairros operários com aptidão de transfiguração e um património industrial sem igual.

Tem colectividades em cada ruela. Modos de relacionamento que funcionam como factores de coesão social. O associativismo é uma forma de estar. É uma urbe participativa. E possui um ambiente urbano singular, assente na urgência de fazer, em festivais de música, em grupos rock, numa escola de jazz, no teatro, na boémia e numa das populações mais jovens do país.

Nos anos 80, num concurso da RTP, à pergunta “que cidade é famosa pelo seu nevoeiro?”, uma senhora respondeu, confiante, “Barreiro”. Para muitos ainda será assim. Mas é possível avistar outra realidade, como o realizador e fotógrafo Anton Corbjin, que ali achou o lugar pós-industrial ideal para filmar os U2 em 2004.

O alvoroço na música

A pele revela. Mas é preciso saber ver. António Câmara, professor catedrático, director da YDreams, Prémio Pessoa em 2006, anda a olhar para o Barreiro há muito. “Fui pela primeira vez, em 1972, aos 16 anos, para ver jogar Earnest Killum, antigo jogador dos Los Angeles Lakers, que o Barreirense havia contratado”, recorda. Durante esse ano apanhava o barco de Lisboa para a outra margem, para assistir aos jogos de basquete. Quando regressou dos EUA e foi viver para o Meco, o filho acabou no Barreirense. “Levei-o a uma sessão de treino, percebi o entusiasmo que havia naquele lugar e não hesitei.” Ainda hoje pensa que foi uma das melhores decisões da sua vida. “Foi a melhor ‘escola’ que ele podia ter frequentado, aprendendo valores fundamentais como a paixão, o espírito de sacrifício, a resistência, saber ganhar e perder.” Aprendeu basquete e também a “aspirar à excelência.”

Durante cinco anos, quase diariamente, conduzia o filho aos treinos e depressa apreendeu elementos fundamentais da cidade: “Percebi que havia um espaço, a Quimiparque, ou seja a ex-CUF, que é o espaço com mais potencial na área metropolitana de Lisboa, porque está à beira do rio e são quase 300 hectares onde seria possível fazer uma nova Expo, mas mais experimental.”

E também que havia uma atmosfera cultural própria. “Notei que havia boas livrarias, como a Bocage, e um grande interesse pela música – não só no Barreiro, como nas áreas adjacentes. Havia muitos grupos ligados ao rock, jazz ou hip-hop. Senti que havia ali um ambiente experimental urbano que era fora do comum. E depois havia também um associativismo que me surpreendeu.”

Os indícios desses anos avolumaram-se. Hoje discute-se o futuro da área industrial da Quimiparque e do ponto de vista cultural vive-se um momento agitado. A companhia de teatro Arte Viva celebra 30 anos, integrando uma escola que tem hoje 100 alunos, maneira de integrar a população. Mas é sobretudo na música o alvoroço.

Em Setembro, no auditório Augusto Cabrita, decorreu o festival Barreiro Outras Músicas (BOM), com os americanos Anti-Pop Consortium, figuras de proa do hip-hop progressista, o alemão Oval, nome fundamental das electrónicas abstractas, ou os portugueses Lula Pena, Tigrala e os locais The Hidden Cookie.

Durante o mês de Outubro decorreu “A Cidade e a Música” com mais de uma dúzia de espectáculos dedicados a várias áreas musicais. A meio de Outubro foi a vez da sétima edição do OUT.FEST, evento maior em Portugal no campo das músicas exploratórias, que contou com Panda Bear (Animal Collective), nomes do jazz de vanguarda (Alex Von Schlippenbach e Lol Coxhill) ou projectos mais do que credíveis como os americanos Oneothrix Point Never e Emeralds.

No segundo fim de semana de Novembro foi a vez da 10ª edição do Barreiro Rocks, no Clube Desportivo Ferroviários, com os americanos Strange Boys e King Khan & The Shrines ou os locais Nicotine’s Orchestra. Duas noites esgotadas com rock & roll, celebração, festas depois dos concertos, ambiente multifacetado, engalanado pela presença do “crooner” Vieira, 81 anos, mestre de cerimónias de um acontecimento que atrai espanhóis e ingleses.

Todos estes acontecimentos têm o apoio da câmara local (no caso do OUT.FEST, também da DGartes) e acontecem em espaços como o Auditório Augusto Cabrita ou a Casa da Cultura, mas também nas incontáveis colectividades e associações, como Os Franceses, Penicheiros, Ferroviários, Clube Naval ou Cine Clube.

Mas não é só os festivais. É também a proliferação de projectos. Por um lado existem bandas conotadas com as linguagens mais exuberantes do rock – onde a cabe distorção, energia descontrolada, mas também a soul ou funk dos primórdios -, algumas delas agrupadas na compilação “Barreiro Rocks” da colecção OptimusDiscos, como Act Ups, Ballyhoos, Tracy Lee Summer, Fast Eddie & The Riverside Monkeys, Nicotine’s Orchestra, Los Santeros, Sullens ou Singing Dears. Alguns músicos, com destaque para Carlos Ramos (Nick Nicotine), circulam por algumas destas formações, ele que é também o mentor da editora-associação-produtora Hey! Pachuco!

Por outro, existem músicos como Mike Styles ou os Hidden Cookie, mais próximos da folk ou do rock alternativos, ou os Frango, PCF Moya, Pow! ou Tiago Sousa, mais difíceis de enquadrar e conotados com diversas linguagens exploratórias. Há ainda a Escola de Jazz do Barreiro, dirigida pelo músico Jorge Moniz, embrião de actividades, como os concertos semanais no espaço Be Jazz Café, com formações que tanto contemplam alunos, como nomes firmados do jazz. E inúmeros projectos de hip-hop e kuduro, a maior parte ainda confinada à invisibilidade.

Partilha do conhecimento

Não nasceram de geração espontânea. Há muito que a cidade é lugar de música e boémia. Durante o antigo regime a música estava ligada ao movimento associativo, com cantores reprimidos pelas autoridades a tocarem em colectividades, facultando uma oferta cultural que não se encontrava em mais nenhum lugar.

Rui Paz, arquitecto, trocou o Barreiro pelo Porto há dez anos, mas não esqueceu o papel que as colectividades tiveram na educação de avós e pais. “A população nos anos 50, 60 e por aí fora era muito culta, em comparação com a média em Portugal, por causa delas [das colectividades]. Havia bibliotecas, partilha do saber.” Hoje as novas gerações voltam a reaproveitá-las como espaços culturais, mas Rui Paz queria que se fosse mais longe. “O modelo das colectividades é actual – essa ideia da partilha do conhecimento – mas teria que ser feita uma readaptação aos nossos tempos.”

Nos anos 80 foi o ímpeto das rádios piratas (Margem Sul ou Sul e Sueste) e de alguns espaços nocturnos, como os pequenos bares Alburrica e Portão, e os inúmeros cafés e tascas das ruelas do chamado “Barreiro velho”, como a relaxada Vinícola, que funcionaram como embrião de algumas aventuras importantes.

Vivia-se o período pós-punk e o Barreiro era comparado à Manchester dos Joy Division pela paisagem industrial, mas também porque albergava muitos melómanos a par do que se passava de mais aventureiro nas capitais do mundo. Foi nesse contexto que na segunda metade dos anos 80 grupos como os Rocócó, marcados pelas visões industrias, ou os Soberano Veste Chanel, acabam por alcançar alguma projecção.

A primeira metade dos anos 90 são marcadas pelo grunge e pela explosão da música de dança e o Barreiro estava lá. Na discoteca Os Franceses, adjacente à colectividade do mesmo nome, ouvia-se tecno e house, coisa rara em Portugal. À frente dos destinos do bar Alburrica estava Jorge Sol, que havia integrado os Rocócó, e que é actualmente director criativo da MiopiaDesign.

“Em termos musicais estávamos alinhados com aquilo que se passava em Lisboa” recorda. “Foram anos incríveis. Mas não era só o Alburrica. Era também o Portão, a Carvoaria, os Franceses, o DNA, existia um circuito nocturno estimulante.”

Hoje continua a sentir uma “dinâmica criativa enorme.” Mas a noite está diferente. Nesse período havia uma mística – “nos anos 90 havia malta que fazia 30 quilómetros para vir ao Barreiro” – que se perdeu. “Essa ideia de circuito não existe, com excepção do Alburrica que continua a ser um local de culto.”

Hoje o ponto de encontro é o largo dos Penicheiros, onde jovens de cerveja na mão circulam de café em café. O espaço da Chapelaria, importante local de cumplicidade, fechou. O mesmo acontecendo com El Matador (mais tarde Espaço B), local que no início de 2000 albergou as bandas que marcam o ritmo da cidade.

Mas a correia de transmissão entre gerações funcionou. Nos anos 90 algumas bandas rock distinguiram-se, como os Gasoline, Toast ou Unladylike Scream. Com meia dúzia de concertos, os últimos são a banda mais recordada, em parte pelas performances viscerais do cantor Paulo Lameira e do guitarrista Nuno Cunha – há vídeos no youtube que o testemunham. Para Nick Nicorette eles foram “a coisa mais intensa que o Barreiro já viu.”

Rui Paz não se esqueceu desse período. “O Lameira era um tipo incrível em palco, havia uma energia particular em tudo aquilo. O Barreiro era especial, com gente muito criativa, mas é preciso alimentar essa criatividade, comunicá-la, de contrário esgota-se. Deve ter acontecido isso com os Unlady e com outros. Em lugares como o Barreiro a possibilidade de se passar completamente ao lado de qualquer coisa aumenta.”

Uma visão algo semelhante tem Nelson Gomes, da produtora Filho Único e músico dos Gala Drop, que já não vive no Barreiro há oito anos. “É uma cidade que fica demasiado perto de Lisboa, mas ao mesmo tempo está longe, vive nesse conflito entre não querer ser subúrbio, tendo uma dinâmica própria, mas não conseguindo, acabando por estar sempre a olhar para Lisboa. Para quem quer ir mais além, não ficar abafado, só lhe resta sair.”

O local e o global

Não vale a pena romantizar o que está a acontecer neste momento no Barreiro. Mas desvalorizá-lo é também não perceber como se geram este tipo de dinâmicas. Tiago Sousa sabe-o.

Responsável pela já extinta editora Merzbau (B Fachada, Lobster), envolvido na organização dos festivais, autor de um dos melhores álbuns portugueses do ano passado (“Insónia”, música para piano de expressividade emocional), e com registo novo para editar em Fevereiro pela americana Immnune (“Walden Pond’s Monk”) aspira cada vez mais a comunicar para um público “global”, mas continua ter um olhar muito lúcido sobre o “local”.

“Não vale a pena embandeirar em arco com algo cujos defeitos e virtudes conhecemos bem, mas também é preciso não subestimar o efeito do que tem vindo a ser construído” afirma, dando exemplos: “ao cabo de dez anos, foi a edição com mais pessoas do Barreiro Rocks, com um ambiente saudável, muita gente de fora e uma dinâmica própria, e o OUT.FEST também foi o mais conseguido de sempre. A cidade tem ganho com a exposição dos festivais. Considerando que os fenómenos culturais são parte de um todo que envolve criação e público, o Barreiro é um fenómeno coxo, mas não será o pais inteiro assim? Não é expectável que mudemos isso. No entanto, dentro daquilo que está aqui a ser feito, o Barreiro é um fenómeno que importa alimentar.”

A principal dificuldade é convencer a população local a envolver-se mais. “Essa é a maior esquizofrenia” diz. “Existe uma grande diferença entre aquilo que um grupo de pessoas, apesar de tudo reduzido, consegue fazer – atraindo pessoas de Lisboa e áreas adjacentes – e o espaço da cidade crescer a partir dessa base.”

Rui Pedro Dâmaso, músico (Frango, PCF Moya) e organizador do OUT.FEST, tem postura semelhante. “É como se não fosse legitimo esperar que houvesse uma vida cultural aqui, “então isso faz com que as pessoas não estejam atentas ao que se vai passando fora de alguns círculos. Às vezes é difícil. As coisas vão acontecendo. Há entusiastas. Mas depois falta que haja mais coisas para além daquelas que vão sendo feitas por nós.”

Ou seja, faz falta que a cidade se olhe ao espelho, e defina um rumo. “O que pode diferenciar a cidade de outro lugar suburbano é isso: a cultura. Quando acontecem os festivais é uma das poucas alturas do ano em que se projecta uma imagem diferente. Em que as pessoas vêm cá para algo que só o Barreiro pode oferecer.”

A importância da memória

Geograficamente é uma cidade ambígua. Perto e longe de Lisboa. Talvez por isso a possível construção de uma ponte Chelas-Barreiro suscite divisões. Há quem defenda que essa é a única via de desenvolvimento, e quem sustente que isso a tornará numa cidade indistinta. “Isto não é como Almada ou a zona Norte de Lisboa” diz Dâmaso. Ou seja, não é  local de passagem. “Ao Barreiro só vem quem quer mesmo. Isto acaba por ser uma ilha.”

Há um assunto onde todos estão de acordo. A história do Barreiro é rica e não tem sido valorizada junto das novas gerações, nem comunicada ao país, mesmo se há dois anos a CUF fez 100 anos e a data foi lembrada com uma série de iniciativas. Era preciso que esse legado não se perdesse, dizem.

A experiência da CUF foi incomparável. Foi ali que se fez a revolução industrial portuguesa. Ali se concretizou o sonho de Alfredo da Silva, o grande empresário português da primeira metade do século XX, que criou um novo conceito de família, à volta das fábricas, inovadora para a época. Substituiu-se aos deveres sociais do Estado, criou a sua própria segurança social, hospitais e escolas. Era um país dentro do país. O que é curioso que é a experiência da CUF volta a estar actual. Nos EUA, por exemplo, há uma série de experiências comunitárias ditas de carácter experimental, com características semelhantes.

Há todo um legado que se vai perder se não for feito nada, diz a arquitecta Joana Astolfi, que desenvolveu o design da exposição “Cem anos da Cuf no Barreiro”, e que ficou fascinada com o que foi encontrar. “Não sabia nada sobre o Barreiro. Não sabia nada sobre o Alfredo da Silva. Ele criou um mundo. Há ali um património que interessava preservar porque a história da CUF é notável e merecia passar de geração em geração neste pais.”

Há apenas um pequeno núcleo museológico, o Museu Industrial da Quimiparque, que está quase sempre encerrado, mas segundo Astolfi “já se perdeu imenso património. Há pessoas que coleccionaram peças antes de desactivarem as fábricas, mas quando lá cheguei encontrei tudo desorganizado. Apenas deu para ir buscar coisas com valor gráfico, visual e histórico. A sensação que tive foi: isto está esquecido. Tive que fazer uma filtragem enorme.”

O espaço envolvente da Quimiparque, constituído por bairros operários, também encerra múltiplas possibilidades. Nos últimos anos uma série de empresas e ateliers (publicidade, design, serviços) fixaram-se ali, mas ainda há muito por desbravar. “Naquela zona devia existir um museu à séria”, afirma Joana Astolfi, “com capacidade de atracção”, porque, de contrário, “parte da nossa história, e da memória do Barreiro, perder-se-á.”

No projecto que António Câmara tem para o Barreiro, desenhado em conjunto com a Câmara Municipal, a memória joga um papel essencial. “Há uma parte decadente da cidade” reconhece, “mas ao mesmo tempo há uma vibração enorme e foi por isso que delineámos um programa que pretende mobilizar as energias jovens que existem para fazer algo diferente e chegámos a um conceito a que demos o nome de Fabricarte.” A ideia é criar um centro comunitário, misto de biblioteca do futuro, centro de ciência, zona de experimentação e fabricação – inspirado no conceito dos Fab Lab do MIT – e de incubadora de empresas.” Para o projecto funcionar dois elementos essenciais interconectam-se.

“Um é a ligação aos antigos operários e às artes que eles dominavam, num contexto completamente tecnológico. A ideia era entrevistar quem tinha trabalhado na CUF nas mais diversas áreas e fazer um registo. Um trabalho de memória. Houve um trabalho do Instituto de Ciências Sociais sobre os artesãos de Portugal e é um pouco nessa linha. Investigar, detectar todos os saberes, e depois tentar adaptá-los às tecnologias modernas.”

O propósito é fácil de compreender. “Há saberes que não convém perder. Por exemplo, nos EUA, neste momento, ninguém sabe fazer ecrãs. São feitos na China. Resultado: por cada emprego gerado pelos iPad nos EUA há dez empregos gerados na China. No Barreiro há saberes que se irão perder com estas gerações e que poderão ter interesse num contexto completamente diferente.”

A outra componente importante do projecto “tem a ver com as áreas em que achamos que o Fabricarte devia especializar-se: a música e o desporto.” O potencial de atracção já existe. Só tem que ser estimulado. Da música, já falámos. Do desporto, basta pensar no papel que clubes (Barreirense, CUF ou Luso) e colectividades tiveram na prospecção de talentos, que alimentaram, durante décadas, equipas de futebol como o Benfica de Bento, Chalana, Carlos Manuel, Diamantino e outros.

“A ideia era ter um centro onde se pudesse ler tudo o que há sobre música, experimentar música, fazer música, ou ler sobre desporto, com uma parte de experimentação que fosse quase um centro de ciência viva em que explorassem esses dois temas. Haver possibilidade das pessoas tocarem, inventarem novos objectos, utilizando a fabricação, imaginar novos sensores para o desporto, ou novos equipamentos, ou novos instrumentos musicais. Tudo ligado isto ligado à música e ao desporto.”

E o que falta para o projecto avançar? O tradicional em Portugal – financiamento. Há dinheiros comunitários, falta a parcela portuguesa, afirma. “Toda a gente está interessada, tem imensas potencialidades e o Barreiro é o ambiente ideal”, diz António Câmara. Seja com este, ou com outro projecto, o que os novos actores culturais da cidade desejam é que não sejam esquecidos. “Era importante agora que se fala muito do futuro da zona industrial, que aquilo que tem emergido como cultura própria do Barreiro pudesse ser integrado nessa ideia de futuro que é necessária para a cidade”, conclui Rui Pedro Dâmaso.

O potencial de futuro está lá. A memória, a identidade, uma ideia de comunidade fragilizada mas que a ainda subsiste, a energia do fazer, a criatividade, os espaços com desejo de serem reconvertidos. Falta conectar. Estimular. Se isso acontecerá ou não o futuro dirá. Mas o filão está lá. Na ilha do Barreiro.

maestro lopes-graça

November 30th, 2010

trem azul

November 22nd, 2010

obrigado a todos os que resistiram ao estado de sítio que levantou a cimeira da nato em lisboa e apareceram no concerto!
momento alto da noite,ferrandini+pedrocosta+hernanifaustino+pedrosousa jamming na “cozinha” da trem azul… : )

para breve, vídeos e fotos..

é a soberania dos povos que está em causa

November 15th, 2010

http://www.facebook.com/#!/event.php?eid=173398762675945

<<Stop Bank é um convite à escala europeia para levantamento maciço de fundos nas contas bancárias e fechamento das contas de poupança.

A campanha de Stop Bank, em França, foram 13.100 participantes, e espera mais 57 mil.
Este é o primeiro grupo de acção espontânea, a fim de proteger-vos da comunicação social e corrupção política e nos libertar da escravidão que nos foi imposta pelos grandes banqueiros.

Nossa acção é legal, sossegada, secular, não política e não-sindicalizada.

Fazemos isso porque, obviamente, mais manifestações não trás benefícios porque a elite não ouve e mesmo assim o poder real está nas mãos de bancos internacionais e corporações.

Portanto, em 7 Dezembro retirar o dinheiro em massa dos nossos bancos!

Estamos conscientes de que estamos em crise, com desemprego elevado, e que a maioria emprega angústia pura, e que não faz sentindo mudar alguma coisa. ERRADO!

“pequenos riachos fazem os grandes rios!”

Precisamos construir tanta pressão para fazer os políticos perceberem que o poder deles existe porque nós o toleramos. Mas nós também podemos mudar as regras!

Esta acção deve acontecer em conjunto e ser contínua, para que possamos fazer as nossas elites “tremer”.

Aproveitemos o momentum!
Este evento não tem como objectivo fazer o sistema colapsar de imediato.
Protestar, de pouco vale. Acções pacificas e não-violentas em larga escala é a única maneira de reivindicação dos nossos direitos. À semelhança dos Movimentos de Gandhi e Martin Luther-King.>>

Este é o maior fracasso da democracia portuguesa

November 15th, 2010

<<Este é o maior fracasso da democracia portuguesa

Não admira que num país assim emerjam cavalgaduras, que chegam ao topo, dizendo ter formação, que nunca adquiriram, (Olá! camaradas Sócrates…Olá! Armando Vara…), que usem dinheiros públicos (fortunas escandalosas) para se promoverem pessoalmente face a um público acrítico, burro e embrutecido.Este é um país em que a Câmara Municipal de Lisboa, em governação socialista, distribui casas de RENDA ECONÓMICA – mas não de construção económica – aos seus altos funcionários e jornalistas, em que estes últimos, em atitude de gratidão, passaram a esconder as verdadeiras notícias e passaram a “prostituir-se” na sua dignidade profissional, a troco de participar nos roubos de dinheiros públicos, destinados a gente carenciada, mas mais honesta que estes bandalhos.Em dado momento a actividade do jornalismo constituiu-se como O VERDADEIRO PODER. Só pela sua acção se sabia a verdade sobre os podres forjados pelos políticos e pelo poder judicial. Agora continua a ser o VERDADEIRO PODER mas senta-se à mesa dos corruptos e com eles partilha os despojos, rapando os ossos ao esqueleto deste povo burro e embrutecido. Para garantir que vai continuar burro o grande “cavallia” (que em português significa cavalgadura) desferiu o golpe de morte ao ensino público e coroou a acção com a criação das Novas Oportunidades.Gente assim mal formada vai aceitar tudo, e o país será o pátio de recreio dos mafiosos.A justiça portuguesa não é apenas cega. É surda, muda, coxa e marreca.Portugal tem um défice de responsabilidade civil, criminal e moral muito maior do que o seu défice financeiro, e nenhum português se preocupa com isso, apesar de pagar os custos da morosidade, do secretismo, do encobrimento, do compadrio e da corrupção. Os portugueses, na sua infinita e pacata desordem existencial, acham tudo “normal” e encolhem os ombros. Por uma vez gostava que em Portugal alguma coisa tivesse um fim, ponto final, assunto arrumado. Não se fala mais nisso. Vivemos no país mais inconclusivo do mundo, em permanente agitação sobre tudo e sem concluir nada.Desde os Templários e as obras de Santa Engrácia, que se sabe que, nada acaba em Portugal, nada é levado às últimas consequências, nada é definitivo e tudo é improvisado, temporário, desenrascado.Da morte de Francisco Sá Carneiro e do eterno mistério que a rodeia, foi crime, não foi crime, ao desaparecimento de Madeleine McCann ou ao caso Casa Pia, sabemos de antemão que nunca saberemos o fim destas histórias, nem o que verdadeiramente se passou, nem quem são os criminosos ou quantos crimes houve.Tudo a que temos direito são informações caídas a conta-gotas, pedaços de enigma, peças do quebra-cabeças. E habituamo-nos a prescindir de apurar a verdade porque intimamente achamos que não saber o final da história é uma coisa normal em Portugal, e que este é um país onde as coisas importantes são “abafadas”, como se vivêssemos ainda em ditadura.E os novos códigos Penal e de Processo Penal em nada vão mudar este estado de coisas. Apesar dos jornais e das televisões, dos blogs, dos computadores e da Internet, apesar de termos acesso em tempo real ao maior número de notícias de sempre, continuamos sem saber nada, e esperando nunca vir a saber com toda a naturalidade.Do caso Portucale à Operação Furacão, da compra dos submarinos às escutas ao primeiro-ministro, do caso da Universidade Independente ao caso da Universidade Moderna, do Futebol Clube do Porto ao Sport Lisboa Benfica, da corrupção dos árbitros à corrupção dos autarcas, de Fátima Felgueiras a Isaltino Morais, da Braga Parques ao grande empresário Bibi, das queixas tardias de Catalina Pestana às de João Cravinho, há por aí alguém que acredite que algum destes secretos arquivos e seus possíveis e alegados, muitos alegados crimes, acabem por ser investigados, julgados e devidamente punidos?Vale e Azevedo pagou por todos?Quem se lembra dos doentes infectados por acidente e negligência do Ministério da Saúde Leonor Beleza com o vírus da sida?Quem se lembra do miúdo electrocutado no semáforo e do outro afogado num parque aquático?Quem se lembra das crianças assassinadas na Madeira e do mistério dos crimes imputados ao padre Frederico?Quem se lembra que um dos raros condenados em Portugal, o mesmo padre Frederico, acabou a passear no Calçadão de Copacabana?Quem se lembra do autarca alentejano queimado no seu carro e cuja cabeça foi roubada do Instituto de Medicina Legal?Em todos estes casos, e muitos outros, menos falados e tão sombrios e enrodilhados como estes, a verdade a que tivemos direito foi nenhuma.No caso McCann, cujos desenvolvimentos vão do escabroso ao incrível, alguém acredita que se venha a descobrir o corpo da criança ou a condenar alguém?As últimas notícias dizem que Gerry McCann não seria pai biológico da criança, contribuindo para a confusão desta investigação em que a Polícia espalha rumores e indícios que não têm substância.E a miúda desaparecida em Figueira? O que lhe aconteceu? E todas as crianças desaparecida antes delas, quem as procurou?E o processo do Parque, onde tantos clientes buscavam prostitutos, alguns menores, onde tanta gente “importante” estava envolvida, o que aconteceu? Alguns até arranjaram cargos em organismos da UE.Arranjou-se um bode expiatório, foi o que aconteceu.E as famosas fotografias de Teresa Costa Macedo? Aquelas em que ela reconheceu imensa gente “importante”, jogadores de futebol, milionários, políticos, onde estão? Foram destruídas? Quem as destruiu e porquê?E os crimes de evasão fiscal de Artur Albarran mais os negócios escuros do grupo Carlyle do senhor Carlucci em Portugal, onde é que isso pára?O mesmo grupo Carlyle onde labora o ex-ministro Martins da Cruz, apeado por causa de um pequeno crime sem importância, o da cunha para a sua filha.E aquele médico do Hospital de Santa Maria, suspeito de ter assassinado doentes por negligência? Exerce medicina?E os que sobram e todos os dias vão praticando os seus crimes de colarinho branco sabendo que a justiça portuguesa não é apenas cega, é surda, muda, coxa e marreca.Passado o prazo da intriga e do sensacionalismo, todos estes casos são arquivados nas gavetas das nossas consciências e condenados ao esquecimento.Ninguém quer saber a verdade. Ou, pelo menos, tentar saber a verdade.Nunca saberemos a verdade sobre o caso Casa Pia, nem saberemos quem eram as redes e os “senhores importantes” que abusaram, abusam e abusarão de crianças em Portugal, sejam rapazes ou raparigas, visto que os abusos sobre meninas ficaram sempre na sombra.Existe em Portugal uma camada subterrânea de segredos e injustiças, de protecções e lavagens, de corporações e famílias, de eminências e reputações, de dinheiros e negociações que impede a escavação da verdade.

Este é o maior fracasso da democracia portuguesa>>

Clara Ferreira Alves – “Expresso”

É sem dúvida um enorme fracasso, mas pior do que falhar, que não demonstra mais do que o nosso lado humano e falível, é arrogar-nos ao falhanço inconsequente. É tempo de mostrar indignação, de chamar a nós a responsabilidade e de puxarmos cada um de nós pela nossa consciência e nos perguntarmos que tipo de mundo estamos a construir e que tipo de mundo queremos para o nosso futuro. Antes de um plano de acção urge um movimento de consciencialização. É tempo de fazer perguntas e buscar respostas.

o dinheiro como dívida..

November 14th, 2010