Rachmaninov – Sonate pour violoncelle et piano Op. 19
Tony Buck & Magda Mayas
rachmaninov – the isle of the dead
insurreição II
<<É vertiginoso ver o «I AM WHAT I AM» da Reebok entronado no topo de um arranha-céus de Xangai. O Ocidente avança em todas as direcções, tal como o seu cavalo de Tróia preferido, essa antinomia mortífera entre o Eu e o mundo, o indivíduo e o grupo, entre enraizamento e liberdade. A liberdade não é o gesto de nos desfazermos dos nossos laços, mas a capacidade prática de agirmos sobre eles, de nos movermos dentro deles, de os estabelecermos ou de os cortarmos. A família só existe como família, isto é, como inferno, para aquele que renunciou a alterar-lhe os mecanismos debilitantes, ou que não sabe como o fazer. A liberdade de uma pessoa se subtrair foi sempre o fantasma da liberdade. Nunca nos desembaraçamos daquilo que nos bloqueia sem ao mesmo tempo perdermos aquilo sobre o qual as nossas forças se poderiam exercer.
«I AM WHAT I AM» não é portanto uma simples mentira, uma simples campanha publicitária, mas sim uma campanha militar, um grito de guerra lançado contra tudo o que existe entre os seres, contra tudo o que circula indistintamente, tudo o que os liga invisivelmente, tudo o que serve de obstáculo à desolação completa, contra tudo o que faz com que nós existamos e que o mundo inteiro não se assemelhe a uma auto-estrada, a um parque de diversões ou a uma nova cidade tédio puro, bem ordenado e sem paixão, espaço vazio, glacial, onde só transitam corpos registados, moléculas automóveis e mercadorias ideais.
A França não seria a pátria dos ansiolíticos, o paraíso dos anti-depressivos, a Meca da neurose se não fosse simultaneamente a campeã europeia da produtividade horária. A doença, o cansaço, a depressão podem ser vistos como sintomas individuais daquilo que é preciso curar. Contribuem dessa forma para a manutenção da ordem existente, para a minha adaptação dócil a normas idiotas, para a modernização das minhas muletas. Encobrem a selecção que eu próprio faço entre as minhas inclinações oportunas, conformes, produtivas, e aquelas de que, com jeitinho, será preciso fazer o luto. «É preciso saber mudar, sabes?» No entanto, tomadas como factos, as minhas falhas podem também levar ao desmantelamento da hipótese do Eu. Tornam-se então actos de resistência na guerra que está em curso. Tornam-se rebelião e centro de energia contra tudo aquilo que conspira para nos normalizar, para nos amputar. Não é o Eu que está em crise, mas sim a maneira como nos querem impor esse Eu. Querem tornar-nos Eus bem delimitados, isolados, classificáveis e catalogáveis por qualidades, numa palavra, controláveis, quando somos criaturas entre as criaturas, singularidades entre os nossos semelhantes, carne viva que compõe a carne do mundo. Ao contrário do que nos dizem desde pequenos, a inteligência não é a capacidade de adaptação — ou, se isso é inteligência, será a dos escravos. A nossa inadaptação, o nosso cansaço, só são problemas do ponto de vista de quem nos quer subjugar. Indicam sobretudo um ponto de partida, um ponto de confluência para cumplicidades inéditas. Deixam entrever uma paisagem muito mais deteriorada, mas infinitamente mais partilhável do que todas as fantasmagorias que esta sociedade alimenta a respeito de si própria.
Nós não estamos deprimidos, estamos em greve. Para aqueles que se recusam a gerir-se a si próprios, a «depressão» não é um estado mas sim uma passagem, um adeus, um passo para ao lado, em direcção a uma desfiliação política. A partir daí, a única conciliação possível é a dos medicamentos e a da polícia. É por isso que esta sociedade não hesita em impôr Ritalin7 às suas crianças mais irrequietas, enredando-as tranquilamente nas teias da dependência de fármacos e pretendendo conseguir detectar «distúrbios comportamentais» desde os três anos. Porque é a hipótese do Eu que está a abrir brechas por todo o lado.>>
em A Insurreição que Vem, Comité Invisível
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<<Entretém-te filho, entretém-te, não desfolhes em vão este malmequer que bem-te-quer, mal-te-quer, vem-te-quer, ovomalt’e-quer, messe gigantesca, vem-te vindo, vi-me na cozinha, vi-me na casa-de-banho, vi-me no Politeama, vi-me no Águia D’ouro, vi-me em toda a parte, vem-te filho, vem-te comer ao olho, vem-te comer à mão, olha os pombinhos pneumáticos que te orgulham por esses cartazes fora, olha a Música no Coração da Indira Gandi, olha o Muchê Dyane que te traz debaixo d’olho, o respeitinho é muito lindo e nós somos um povo de respeito, né filho? Nós somos um povo de respeitinho muito lindo, saímos à rua de cravo na mão sem dar conta de que saímos à rua de cravo na mão a horas certas, né filho? Consolida filho, consolida, enfia-te a horas certas no casarão da Gabriela que o malmequer vai-te tratando do serviço nacional de saúde. Consolida filho, consolida, que o trabalhinho é muito lindo, o teu trabalhinho é muito lindo, é o mais lindo de todos, como o astro, não é filho? O cabrão do astro entra-te pela porta das traseiras, tu tens um gozo do caraças, vais dormir entretido, não é? Pois claro, ganhar forças, ganhar forças para consolidar, para ver se a gente consegue num grande esforço nacional estabilizar esta destabilização filha-da-puta, não é filho? Pois claro! Estás aí a olhar para mim, estás a ver-me dar 33 voltinhas por minuto, pagaste o teu bilhete, pagaste o teu imposto de transação e estás a pensar lá com os teus botões: Este tipo está-me a gozar, este gajo quem é que julga que é? Né filho? Pois não é verdade que tu és um herói desde de nascente? A ti não é qualquer totobola que te enfia o barrete, meu grande safadote! Meu Fernão Mendes Pinto de merda, né filho? Onde está o teu Extremo Oriente, filho? Ah-ni-qui-bé-bé, ah-ni-qui-bó-bó, tu és ‘Sepuldra’ tu és Adamastor, pois claro, tu sozinho consegues enrabar as Nações Unidas com passaporte de coelho, não é filho? Mal eles sabem, pois é, tu sabes o que é gozar a vida! Entretém-te filho, entretém-te! Deixa-te de políticas que a tua política é o trabalho, trabalhinho, porreirinho da Silva, e salve-se quem puder que a vida é curta e os santos não ajudam quem anda para aqui a encher pneus com este paleio de Sanzala e ritmo de pop-xula, não é filho?>>
José Mário Branco, FMI
o tempo que vivemos..
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O espectáculo apresenta-se como uma enorme positividade indiscutível e inacessível. Ele nada mais diz senão que «o que aparece é bom, o que é bom aparece». A atitude que ele exige por princípio é esta aceitação passiva que, na verdade, ele já obteve pela sua maneira de aparecer sem réplica, pelo seu monopólio da aparência.
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O carácter fundamentalmente tautológico do espectáculo decorre do simples facto de os seus meios serem ao mesmo tempo a sua fi nalidade. Ele é o sol que não tem poente, no império da passividade moderna. Recobre toda a superfície do mundo e banha-se indefi nidamente na sua própria glória.
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A sociedade que repousa sobre a indústria moderna não é fortuitamente ou superficialmente espectacular, ela é fundamentalmente espectaculista. No espectáculo, imagem da economia reinante, o fim não é nada, o desenvolvimento é tudo. O espectáculo não quer chegar a outra coisa senão a si próprio.
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Enquanto indispensável adorno dos objectos hoje produzidos, enquanto exposição geral da racionalidade do sistema, e enquanto sector económico avançado que modela directamente uma multidão crescente de imagens-objectos, o espectáculo é a principal produção da sociedade actual.
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O espectáculo submete a si os homens vivos, na medida em que a economia já os submeteu totalmente. Ele não é nada mais do que a economia desenvolvendo-se para si própria. É o reflexo fiel da produção das coisas, e a objectivação infiel dos produtores.
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É a especialização do poder, a mais velha especialização social, que está na raiz do espectáculo. O espectáculo é, assim, uma actividade especializada que fala pelo conjunto das outras. É a representação diplomática da sociedade hierárquica perante si própria, onde qualquer outra palavra é banida. O mais moderno é também aí o mais arcaico.
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O espectáculo é o discurso ininterrupto que a ordem presente faz sobre si própria, o seu monólogo elogioso. É o auto-retrato do poder na época da sua gestão totalitária das condições de existência. A aparência fetichista de pura objectividade nas relações espectaculares esconde o seu carácter de relação entre homens e entre classes: uma segunda natureza parece dominar o nosso meio ambiente com as suas leis fatais. Mas o espectáculo não é esse produto necessário do desenvolvimento técnico olhado como um desenvolvimentonatural. A sociedade do espectáculo é, pelo contrário, a forma que escolhe o seu próprio conteúdo técnico. Se o espectáculo, considerado sob o aspecto restrito dos «meios de comunicação de massa», que são a sua manifestação superficial mais esmagadora, pode parecer invadir a sociedade como uma simples instrumentação, esta não é de facto nada de neutro, mas a instrumentação mesmo que convém ao seu automovimento total. Se as necessidades sociais da época em que se desenvolvem tais técnicas não podem encontrar satisfação senão pela sua mediação, se a administração desta sociedade e todo o contacto entre os homens já não se podem exercer senão por intermédio deste poder de comunicação instantâneo, é porque esta «comunicação» é essencialmenteunilateral; de modo que a sua concentração se traduz no acumular nas mãos da administração do sistema existente os meios que lhe permitem prosseguir esta administração determinada. A cisão generalizada do espectáculo é inseparável doEstado moderno, isto é, da forma geral da cisão na sociedade, produto da divisão do trabalho social e órgão da dominação de classe.
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Aseparação é o alfa e o ómega do espectáculo. A institucionalização da divisão social do trabalho, a formação das classes, tinha construído uma primeira contemplação sagrada, a ordem mítica em que todo o poder se envolve desde a origem. O sagrado justificou a ordenação cósmica e ontológica que correspondia aos interesses dos Senhores, ele explicou e embelezou o que a sociedade não podia fazer. Todo o poder separado foi pois espectacular, mas a adesão de todos a uma tal imagem imóvel não significava senão o reconhecimento comum de um prolongamento imaginário para a pobreza da actividade social real, ainda largamente ressentida como uma condição unitária. O espectáculo moderno exprime, pelo contrário, o que a sociedade pode
fazer, mas nesta expressão o permitido põe-se absolutamente ao possível. O espectáculo é a conservação da inconsciência na modificação prática das condições de existência. Ele é o seu próprio produto, e ele próprio fez as suas regras: é um pseudo-sagrado. Ele mostra o queé: o poder separado, desenvolvendo-se em si mesmo no crescimento da produtividade por intermédio do refinamento incessante da divisão do trabalho na parcelarização dos gestos, desde então dominados pelo movimento independente das máquinas; e trabalhando para um mercado cada vez mais vasto. Toda a comunidade e todo o sentido crítico se dissolveram ao longo deste movimento, no qual as forças que puderam crescer, separando-se, ainda não ser e encontraram.
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Com a separação generalizada do trabalhador e do seu produto perde-se todo o ponto de vista unitário sobre a actividade realizada, toda a comunicação pessoal directa entre os produtores. Na senda do progresso da acumulação dos produtos separados, e da concentração do processo produtivo, a unidade e a comunicação tornam-se o atributo exclusivo da direcção do sistema. O êxito do sistema económico da separação é a proletarização do mundo.
Guy Debord em A Sociedade do Espectáculo
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