até ao fim

February 1st, 2011

“(…) eu conheci-te no espaço do imaginário, sem realidade plausível para poderes ser real. Mas no imaginário é que é tudo e o real é uma procura para se encontrar ele. E quando o não encontra há só que desistir (…)”

Vergílio Ferreira em “Até ao Fim”

free culture!

January 11th, 2011

Every bit of creative property goes through different “lives.” In its first life, if the creator is lucky, the content is sold. In such cases the commercial market is successful for the creator. The vast majority of creative property doesn’t enjoy such success, but some clearly does. For that content, commercial life is extremely important.Without this commercial market, there would be, many argue, much less creativity.

After the commercial life of creative property has ended, our tradition has always supported a second life as well. A newspaper delivers the news every day to the doorsteps of America. The very next day, it is used to wrap fish or to fill boxes with fragile gifts or to build an archive of knowledge about our history. In this second life, the content can continue to inform even if that information is no longer sold. The same has always been true about books. A book goes out of print very quickly (the average today is after about a year 3). After it is out of print, it can be sold in used book stores without the copyright owner getting anything and stored in libraries, where many get to read the book, also for free. Used book stores and libraries are thus the second life of a book. That second life is extremely important to the spread and stability of culture.

Yet increasingly, any assumption about a stable second life for creative property does not hold true with the most important components of popular culture in the twentieth and twenty-first centuries. For these—television, movies,music, radio, the Internet—there is no guarantee of a second life. For these sorts of culture, it is as if we’ve replaced libraries with Barnes & Noble superstores. With this culture, what’s accessible is nothing but what a certain limited market demands. Beyond that, culture disappears.

http://www.free-culture.cc

dialética política

January 4th, 2011

“Na política é quase um lugar-comum que um partido de ordem ou estabilidade e um partido de progresso ou reforma são ambos elementos necessários dum estado saudável da vida política até que um ou outro tenha alargado tanto a sua compreensão mental que seja um partido igualmente de ordem e de progresso, sabendo e distinguindo o que é próprio para ser preservado daquilo que deve ser eliminado.

Cada um destes modos de pensar deriva a sua utilidade das deficiências do outro; mas é em grande parte a oposição do outro que mantém cada um dentro dos limites da razão e da sanidade.

A menos que as opiniões favoráveis à democracia e à aristocracia, à propriedade e à igualdade, à cooperação e à competição, à liberdade e à disciplina, e a todos os outros antagonismos constantes da vida prática, sejam expressas com igual liberdade e reforçadas e defendidas com igual talento e energia, não existe nenhuma oportunidade de ambos os elementos obterem a sua justiça; um braço da balança certamente sobe e o outro desce.”

John Stuart Mill – Da liberdade de Pensamento e de Expressão

Uma Vida Imaginária

January 4th, 2011

“Deixei de achar falhas na criação e aprendi a aceitá-la. Temos um poder em nós que conhece os seus próprios limites. É isso o que nos conduz para aquilo em que finalmente nos devemos transformar.Só temos de admitir a possibilidade e de alguma maneira o espírito trabalha em nós para que aconteça. Este é o verdadeiro significado da transformação. Esta é a verdadeira metamorfose. Os nossos eus futuros estão contidos em nós, como as folhas e as flores estão na árvore.  Só temos de descobrir a Primavera e libertá-la. Essas mudanças são lentas e estão para lá da imaginação. Levam gerações. Mas funciona, este processo. Já somos o produto de geração após geração a querer ser assim. E o que tu és, leitor, é o que nós desejámos. Já és deus? Encontraste asas?”

David Malouf

O Método Emancipador

December 5th, 2010

<<Na lógica pedagógica, o ignorante não é apenas aquele que ignora ainda o que o mestre sabe. É antes aquele que não sabe o que ignora nem como chegar a saber isso que ignora. O mestre, esse, não é apenas o indivíduo que detém o saber ignorado pelo ignorante. É também aquele que saber como fazer da coisa ignorada um objecto de saber, em que momento e segundo que protocolo. Porque, em boa verdade, não há ignorante que não saiba já um conjunto de coisas, que, não as tenha aprendido por si próprio olhando e escutando à sua volta, observando e repetindo, enganado-se e corrigindo os seus erros. Mas, para o mestre, um tal saber não passa de um saber de ignorante, um saber incapaz de se ordenar segundo a progressão que vai do mais simples ao mais complexo. O ignorante progride comparando o que descobre com aquilo que já sabe, ao saber do acaso dos encontros, mas também segundo a regra aritmética, a regra democrática que faz da ignorância um menor saber. Preocupa-se apenas em saber mais, em passar a saber aquilo que ainda ignorava.   O que lhe falta, o que sempre faltará ao aluno, a não ser que se torne ele próprio mestre, é o saber relativo à ignorância, o conhecimento da distância exacta que separa o saber da ignorância.

Essa medida escapa precisamente à aritmética dos ignorantes. O que o  mestre sabe, o que o protocolo de transmissão do saber começa por ensinar ao aluno, é que a ignorância não é um menor saber. A ignorância é o posto do saber, porque o saber não é um conjunto de conhecimentos, mas sim uma proposição. A distância exacta é a distância que nenhuma regra mede, a distância que se prova pelo simples jogo das posições ocupadas, que se exerce pela interminável prática do <<passo mais à frente>> que separa o mestre do indivíduo que supostamente o mestre deve trazer até junto de si. A distância é a metáfora do abismo radical que separa o modo de estar do mestre do do ignorante porque separa duas inteligências: a que sabe em que consiste a ignorância e a que o desconhece. É antes de mais este afastamento radical que é ensinado ao aluno pela ordenação própria do ensino progressivo. Este ensina-lhe antes de mais a respectiva incapacidade. E, assim sendo, trata de verificar constantemente no seu agir o seu próprio pressuposto, a desigualdade das inteligências. Esta interminável verificação é aquilo a que Jacotot chama embrutecimento.

A essa prática do embrutecimento opunha Jacotot a prática da emancipação intelectual. A emancipação intelectual é a verificação da igualdade das inteligências. Esta igualdade não significa um igual valor de todas as manifestações da inteligência, mas a igualdade da inteligência relativamente  a si mesma em todas as usas manifestações. Não há dois tipos de inteligência separados por um abismo. O animal humano aprende todas as coisas como começou por aprender a língua materna, como aprendeu a aventurar-se na floresta das coisas e dos signos que o rodeiam, para assim tomar lugar entre os humanos: observando e comparando uma coisa com outra, um signo com um facto, um signo com outro signo. Se o iletrado conhece de cor somente uma oração, pode comparar esse saber com o que ainda ignora: as palavras dessa oração escritas num papel. Pode aprender, signo após signo, a relação daquilo que ignora com o que sabe. Pode fazê-lo, se, a cada passo, observar o que tem à sua frente, disser o que viu e verificar o que disse. Deste ignorante que soletra os signos até ao cientista que constrói hipóteses é sempre a mesma inteligência que se encontra em acção, uma inteligência que traduz signos por outros signos e que procede por comparações e figuras para comunicar as suas aventuras intelectuais e compreender aquilo que uma outra inteligência trata de lhe comunicar.>>

Jacques Rancière, O Espectador Emancipado

Numa linda edição da  Orfeu Negro

http://www.orfeunegro.org/espectador.php?op=8

Agarrar-se ao que se sente ser a verdade. Partir daí.

December 5th, 2010

<<Um encontro, uma descoberta, um vasto movimento de greve, um tremor de terra: todo o acontecimento produz uma verdade, ao alterar a nossa maneira de estar no mundo. Inversamente, uma constatção à qual ficamos indiferentes, que não nos modifica, que não nos compromete, ainda não merece o nome de verdade. Existe em cada gesto, em cada prática, em cada relação, em cada situação, uma verdade subjacente. O hábito é o de iludir, de gerir, o que produz a desorientação característica de grande parte das pessoas desta época. Na realidade, tudo se relaciona com tudo. A impressão de viver numa mentira ainda é uma verdade. Trata-se de não a largar, de partir daí mesmo. Uma verdade não é uma visão do mundo mas o que nos mantém ligados a ele de forma irredutiível. Uma verdade não é algo que se detenha mas algo que nos move. Ela faz-me e desfaz-me, ela constitui-me e destitui-me como indivíduo, ela afastea-me de muita coisa e torna-me parecido com aqueles que a experimentam.

O ser isolado que a ela se agarra encontra fatalmente alguns dos seus semelhantes. Na realidade, todo o processo insurreccional parte duma verdade relativamente à qual não se cede. Viu-se em Hamburgo, no decorrer dos anos 80, que uma mão cheia de habitantes duma casa ocupada decidiu que daí por diante seria preciso passar sobre os seus cadáveres para os expulsar. Houve um bairro cercado de tanques e e helicópteros, dias de luta de rua, manifestações gigantescas – e no final, uma autarquia que capitulou. Georges Guingouin, o “primeiro masquisard de França”, só tinha, em 1940, como ponto de partida, a certeza da sua recusa da ocupação. Para o partido comunista não era mais do que um louco que vive nos bosques; até que passaram a ser 20 000 loucos a viverem nos bosques e a libertar Limoges.>>

A insurreição que vem, Comité Invisível.

mitologia económica

November 28th, 2010

<<Trinta anos de desemprego em massa, de «crise», de crescimento enganoso, e ainda nos querem fazer acreditar na economia.

(…)

À força, apreendemos isto: se não é a economia que está em crise, é a economia que é a crise; se não se trata do trabalho que falta, trata-se do trabalho que existe em demasia; tudo bem pesado, não é a crise mas sim o crescimento que nos deprime. É preciso confessá-lo: a ladainha das cotações da Bolsa toca-nos tanto como uma missa em latim. Felizmente para nós, somos já uns quantos a chegar a esta conclusão. Não falamos de todos os que vivem de esquemas variados, de tráficos de toda a espécie ou que estão há dez anos a viver do rendimento social de inserção. De todos os que já não conseguem identificar-se com o seu trabalho e se reservam para os seus lazeres. De todos os que estão postos na prateleira ou encostados de modo a fazer o mínimo e que constituem a maioria. De todos os que atingiram este desapego em massa, que vem ainda acentuar o exemplo dos desempregados e da sobre-exploração cínica de uma mão-de-obra flexibilizada. Não falamos, portanto, daqueles que, de uma maneira ou de outra, chegarão brevemente a uma conclusão.
Falamos de todos estes países, destes continentes inteiros que perderam a fé económica por terem visto passar com perdas e fracasso os Boeing do FMI, por terem sentido um pouco o toque do Banco Mundial. Não se trata, ali, dessa crise de vocações pela qual passa preguiçosamente a economia, no Ocidente. Aquilo de que se trata na Guiné, na Rússia, na Argentina, na Bolívia, é de um descrédito violento e durável desta religião, e do seu clero. «O que é um milhar de economistas do FMI no fundo do mar? – Um bom começo» gozavam no Banco Mundial. Piada russa: «Encontro entre dois economistas. Um pergunta ao outro: “Tu compreendes o que se passa?” E o outro responde: “Espera, vou-te explicar.” “Não, não”, retoma o primeiro, “explicar não é difícil, eu também sou economista. Não, o que eu te pergunto é: tu compreendes?”». Mesmo o seu clero se vê forçado a entrar em dissidência e a criticar o dogma. A última corrente um pouco viva da pretensa «ciência económica» – corrente que se nomeia sem humor «economia não autista» – tornou-se doravante num trabalho de desmontagem de usurpações, truques de magia, índices falsificados de uma ciência cuja única função tangível é a de agitar o crucifixo em torno das vociferações dos dominantes, de enquadrar com um pouco de cerimónia os seus apelos à submissão e, enfim, como sempre fizeram as religiões, de fornecer as explicações. Porque o descontentamento geral deixa de ser suportável a partir do momento em que aparece tal como é: sem causa nem razão.

(…)

O progresso tornou-se por todo o lado sinónimo de desastre. Tudo foge à esfera da economia como tudo fugia da URSS na época de Andropov. Quem se tiver debruçado um pouco sobre os últimos anos da URSS identificará sem dificuldades, em todos os apelos dos nossos dirigentes ao voluntarismo, em todas as alusões a um futuro do qual perdemos rasto, em todas as profissões de fé «na reforma» de tudo e mais alguma coisa, as primeiras fissuras na estrutura do muro. O desmoronamento do bloco socialista não terá consagrado o triunfo do capitalismo, mas apenas atestado a falibilidade de uma das suas formas. Além do mais, a condenação à morte da URSS não consistiu no feito de um povo em revolta mas de uma nomenclatura em reconversão. Proclamando o fim do socialismo, uma fracção da classe dirigente libertou-se, antes de mais, de todos os deveres anacrónicos que a ligavam à população. Tomou o controlo privado daquilo que já controlava, ainda que o fizesse em nome de todos. «Já que aparentam pagar-nos, aparentemos trabalhar» dizia-se nas fábricas. «Pouco importa, abandonemos as aparências» respondeu a oligarquia.

(…)

Estamos, portanto, bem adaptados à economia. Há gerações que ela nos disciplina, nos pacifica, que faz de nós sujeitos, naturalmente produtivos, contentes por consumir. E eis que se revela tudo o que nos queriam fazer esquecer: que a economia é uma política. E que esta política é, hoje em dia, uma política de selecção no seio de uma humanidade que se tornou, na sua grande massa, supérflua>>

A Insurreição que vem, Comité Invisível
http://www.radioleonor.org/?p=800

os negócios de cada um

November 28th, 2010

<<Mas ainda é preciso, para verificar essa procura, saber o que quer dizer procurar. Esse é o cerne de todo o método. Para emancipar a outrem, é preciso que se tenha emancipado a si próprio. É preciso conhecer-se a si mesmo como viajante do espírito, semelhante a todos os outros viajantes, como sujeito intelectual que participa dapotência comum dos seres intelectuais.
Como se tem acesso a esse conhecimento de si? “Um camponês, um artista (pai de família) se emancipará intelectualmente se refletir sobre o que é e o que faz na ordem social.”" A coisa parecerá simples, ou mesmo simplória, para quem desconhece o peso do velho mandamento que a filosofia, pela voz de Platão, instituiu como destino para o artesão: Não faças nada além de teu próprio negócio,que não é de pensar no que quer que seja, mas simplesmente fazer essa coisa que esgota a definição dc teu ser: se tu és sapateiro, calça-dos e crianças que serão sapateiros. Não é a ti que o oráculo délfico recomenda conhecer-se. E, mesmo se a divindade, brincalhona, se divertisse em semear na alma de teu filho um pouco do ouro do pensamento, é à raça de ouro, aos guardiães da pólis que incumbiria a tarefa de educá-lo, para torná-lo um deles.
É bem verdade que a era do progresso pretendeu abalar a rigidez do velho mandamento. Com os enciclopedistas, decretou que nada mais se fizesse como rotina, nem mesmo o trabalho dos arte-sãos. E sabia que não há ator social, por mais ínfimo que seja, que não se constitua, ao mesmo tempo, em um ser pensante. O cidadão Destutt de Tracy relembrou, no alvorecer do novo século: “Todo homem que fala tem idéias de ideologia, de gramática, de lógica e de eloqüência. Todo homem que age tem princípios de moral privada e de moral social. Todo ser, apenas por vegetar, desenvolve suas noções de física e de cálculo; e, somente pelo fato de viver com seus semelhantes, desenvolve sua pequena coleção de fatos históricos e sua maneira de julgá-los.
Impossível, portanto, que os sapateiros façam apenas calçados– que não sejam também, à sua maneira, gramáticos, moralistas e físicos. Este é o primeiro problema: enquanto os artesãos e os camponeses formarem essas noções de moral, de cálculo ou de física,segundo a rotina de seu meio ou o acaso de seus encontros, a marcha racional do progresso será duplamente contrariada: retardada pelos rotineiros e supersticiosos, ou perturbada pelo açodamento dos violentos. Faz-se, portanto, necessário que um mínimo de instrução,retirado dos princípios da razão, da ciência e do interesse geral, imbua de noções sadias cabeças que, sem isso, as formarão falhas. Escusado mencionar que essa empreitada será tão mais proveitosa quanto mais ela subtrair o filho do camponês ou do artesão do meio natural produtor dessas falsas idéias. No entanto, essa evidência encontra rapidamente sua contradição: a criança que deve ser subtraída à rotina e à superstição deve, no entanto, voltar à sua atividade e à sua condição.E a era do progresso foi, desde sua aurora, advertida do perigo mortal que há em separar a criança do povo da condição para qual está votada e das idéias relativas a essa condição. Assim, ela se esbarra com essa contradição: sabe-se, agora, que as ciências dependem todas de princípios simples, que são acessíveis a todos os espíritos que delas desejarem se apropriar, desde que sigam o método adequado. Mas, a mesma natureza que abre a carreira das ciências a todos os espíritos quer uma ordem social em que as classes estejam separadas e os indivíduos conformados ao estado social que lhes é destinado.>>

jacques rancière em o mestre ignorante.

Rancière brindou-nos ontem com a sua presença na fundação Calouste Gulbenkian.

insurreição

November 23rd, 2010

“Tão regrada, regular e organizada é a vida social portuguesa que mais parece que somos um exército que uma nação de gente com existências individuais. Nunca o português tem uma acção sua, quebrando com o meio, virando as costas aos vizinhos. Age sempre em grupo, sente sempre em grupo, pensa sempre em grupo. Está sempre à espera dos outros para tudo.
Somos incapazes de revolta e agitação. Quando fizemos uma “revolução” foi para implantar uma coisa igual ao que já estava. Manchámos essa revolução com a brandura com que tratámos os vencidos. E não nos resultou uma guerra civil, que nos despertasse; não nos resultou uma anarquia, uma perturbação das consciências. Ficámos miseravelmente os mesmos disciplinados que éramos.
Trabalhemos ao menos – nós, os novos – por perturbar as almas, por desorientar os espíritos. Cultivemos, em nós próprios, a desintegração mental como uma flor de preço. Construamos uma anarquia portuguesa.”
Fernando Pessoa – O Jornal, 8-4-1915