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April 15th, 2011

Li algures que os gregos antigos não escreviam necrológios,
quando alguém morria perguntavam apenas:
tinha paixão?
quando alguém morre também eu quero saber da qualidade da sua paixão:
se tinha paixão pelas coisas gerais,
água,
música,
pelo talento de algumas palavras para se moverem no caos,
pelo corpo salvo dos seus precipícios com destino à glória,
paixão pela paixão,
tinha?
e então indago de mim se eu próprio tenho paixão,
se posso morrer gregamente,
que paixão?
os grandes animais selvagens extinguem-se na terra,
os grandes poemas desaparecem nas grandes línguas que desaparecem,
homens e mulheres perdem a aura
na usura,
na política,
no comércio,
na indústria,
dedos conexos, há dedos que se inspiram nos objectos à espera,
trémulos objectos entrando e saindo
dos dez tão poucos dedos para tantos
objectos do mundo
e o que há assim no mundo que responda à pergunta grega,
pode manter-se a paixão com fruta comida ainda viva,
e fazer depois com sal grosso uma canção curtida pelas cicatrizes,
palavra soprada a que forno com que fôlego,
que alguém perguntasse: tinha paixão?
afastem de mim a pimenta-do-reino, o gengibre, o cravo-da-índia,
ponham muito alto a música e que eu dance,
fluido, infindável,
apanhado por toda a luz antiga e moderna,
os cegos, os temperados, ah não, que ao menos me encontrasse a paixão
e eu me perdesse nela
a paixão grega

Herberto Helder

Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades…

April 15th, 2011

Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades,
muda-se o ser, muda-se a confiança;
todo o Mundo é composto de mudança,
tomando sempre novas qualidades.

Continuamente vemos novidades,
diferentes em tudo da esperança;
do mal ficam as mágoas na lembrança,
e do bem (se algum houve), as saudades.

O tempo cobre o chão de verde manto,
que já coberto foi de neve fria,
e, enfim, converte em choro o doce canto.

E, afora este mudar-se cada dia,
outra mudança faz de mor espanto,
que não se muda já como soía.

Luís de Camões

O Naúfrago

March 4th, 2011

“Em parte alguma impera uma tal irresponsabilidade como nas nossas academias de música, que actualmente conferem a si próprias o nome de Universidades de música, pensei eu. De entre vinte mil professores de música um só é o professor ideal. O Horowitz era esse professor ideal, pensei. O Glenn, se se tivesse dedicado a isso. tê-lo-ia sido também. O Glenn possuía, tal como o Horowitz, a sensibilidade ideal e a compreensão ideal para esse objectivo de transmitir a a arte. Todos os anos dezenas de milhar de estudantes de música trilham a via que os conduz ao embrutecimento das escolas superiores de música, e são completamente destruídos pelos seus professores de música, que não possuem quaisquer aptidões, pensei. Em certas circunstâncias tornam-se célebres, e contudo não compreenderam nada, pensava eu ao entrar na estalagem. Tornam-se um Gulda ou um Brendel, e todavia não são nada. Tornam-se um Gilels, e no entanto não são nada.”

Thomas Bernhard em O Náufrago

pelo direito à insurreição

March 2nd, 2011

“Ao fim e ao cabo,  a razão prática pela qual, tendo o povo o poder na mão,  o entrega a uma maioria, que o conserva durante um longo período, não é porque essa maioria tenha razão, ou porque a minoria o considere justo, mas só porque a maioria dispõe de maior força. Mas um governo em que domina sempre a maioria não pode basear-se na justiça, tal como os homens a entendem. Não será possível haver um governo em que não sejam as maioria mas sim a consciência a decidir virtualmente do que está certo ou errado? Em que as maiorias tomem apenas as decisões a que se aplica a regra da oportunidade? Terão os cidadãos, por um momento que seja, mesmo em grau ínfimo, de submeter a sua consciência ao legislador? Eu penso que devemos ser primeiro homens e só depois súbditos. Não é desejável que se cultive o respeito pela lei, tanto quanto o respeito pela justiça. A única obrigação que tenho o direito de assumir é a de, em todas as alturas, fazer o que julgo justo. Afirma-se muitas vezes e com razão que uma corporação não tem consciência. Mas uma corporação de homens conscientes é uma corporação com consciência. Nunca a lei tornou um homem mais justo; é por causa do respeito pela lei que até alguns bem-intencionados se tornam todos os dias agentes da injustiça. ”

Henry David Thoreau em A Desobediência Civil.

a desobediência q se expressa..

February 24th, 2011

“Quando o súbdito nega a fidelidade e o funcionário renuncia ao cargo, a revolução está completa”

henry david thoreau

Técnica do Golpe Do Mundo

February 17th, 2011

“A arte não pode ter significação vital numa civilização que ergue uma barreira entre a vida e a arte, coleccionando produtos artísticos como despojos de antepassados a venerar. A arte deve formar o vivido. Quanto a nós, o que concebemos é uma situação em que a vida seja continuamente renovada pela arte, uma situação construída pelo imaginário e pela paixão com vista a incitar cada pessoa a responder a isso criativamente. Trata-se de dar a todas as acções, sejam elas quais formem, um comportamento criativo. (…)
Perante esta perspectiva, nada poderá mostrar um mais agudo contraste do que as condições actuais.  A arte anestesia os vivos. Estamos metidos num condicionamento em que a vida se vê continuamente desvitalizada pela arte, onde tudo é apresentado falsamente, com as feições do sensacional e da compra, com vista a inspirar a cada indivíduo a necessidade de responder de maneira passiva e tradicional, de dar a tudo isso e a toda a hora um consentimento banal e automático. Para o homem médio, desencorajado e inquieto, incapaz de concentração, uma obra artística só pode ser assinalada se for posta em compleição na esfera do espectáculo. Nada deverá conter que em princípio revele uma ruptura com o familiar, uma surpresa. O público deve poder identificar-se facilmente e sem reservas com o protagonista, enfiar-se no sofá das montanhas russas emocionais e renunciar à mais ínfima capacidade própria. O que nele se instala é a apossessão, na forma mais prosaica da cegueira e da demissão do sentido crítico.”

em: Internacional Situacionista, Antologia

até ao fim III

February 11th, 2011

“Há prazeres que não têm margem de sacrifício, disse, e isso é que é gostar. Estar à mesa com apetite. Fazer amor com uma mulher que se ama. Ganhar no totobola. E assim. Mas a arte é diferente. Porque escrevo? Porque gosto de fazer, de me realizar numa obra, de haver futuro para mim, de visitar o encantamento, de descobrir o mistério real. Toda a gente tem no bolso uma definição da arte, do amor, política, coisas assim. Dar uma definirão é ser deus, por ser definitivo. E então eu digo: a arte é a transcendência sensível do real. Serve-me”

vergílio ferreira

até ao fim II

February 2nd, 2011

“Eu disse que o sentir era hipócrita? Não é verdade. É o que está mais próximo do ser.
Para norte, vejo núcleos de luzes à beira-mar. Magoito, talvez, mais longe luzes indecisas, Ericeira? aguentam a vigília da noite que finda.
- Mas só palavras o esclarecem, só nelas o sentir é verdade assumida. Gosto de me assumir em tudo o que sou. E tu, Cláudio?
- Como,  meu filho?
-Não me chames filho. Já assentámos que não. Estou farto de metafísicas. Quero ter morrido em verdade perfeita. Sem acreéscimos que vão dar não se sabe aonde.
- Sim. Mas dizias tu que a palavra
- Gosto de tomar consciência de tudo. Perguntava-te se tu também
- Não sei. Já não sei nada é tudo mais forte do que pensá-lo.
- Mas dirás tu: e aquilo que não sabemos? Onde é que se começa a ser o que se é ?  Tu sabes onde é que eu comecei?”

Vergílio Ferreira

até ao fim

February 1st, 2011

“(…) eu conheci-te no espaço do imaginário, sem realidade plausível para poderes ser real. Mas no imaginário é que é tudo e o real é uma procura para se encontrar ele. E quando o não encontra há só que desistir (…)”

Vergílio Ferreira em “Até ao Fim”

free culture!

January 11th, 2011

Every bit of creative property goes through different “lives.” In its first life, if the creator is lucky, the content is sold. In such cases the commercial market is successful for the creator. The vast majority of creative property doesn’t enjoy such success, but some clearly does. For that content, commercial life is extremely important.Without this commercial market, there would be, many argue, much less creativity.

After the commercial life of creative property has ended, our tradition has always supported a second life as well. A newspaper delivers the news every day to the doorsteps of America. The very next day, it is used to wrap fish or to fill boxes with fragile gifts or to build an archive of knowledge about our history. In this second life, the content can continue to inform even if that information is no longer sold. The same has always been true about books. A book goes out of print very quickly (the average today is after about a year 3). After it is out of print, it can be sold in used book stores without the copyright owner getting anything and stored in libraries, where many get to read the book, also for free. Used book stores and libraries are thus the second life of a book. That second life is extremely important to the spread and stability of culture.

Yet increasingly, any assumption about a stable second life for creative property does not hold true with the most important components of popular culture in the twentieth and twenty-first centuries. For these—television, movies,music, radio, the Internet—there is no guarantee of a second life. For these sorts of culture, it is as if we’ve replaced libraries with Barnes & Noble superstores. With this culture, what’s accessible is nothing but what a certain limited market demands. Beyond that, culture disappears.

http://www.free-culture.cc