Respirámos o ar da igualdade
Tratou-se apenas de uma fase temporária e local do enorme jogo que se disputa em toda a face da terra. Mas durou tempo suficiente para produzir os seus efeitos sobre todos quantos participaram na experiência.Por muito que na altura praguejássemos, depois compreendemos que estivéramos em contacto com algo estranho e importante. Estivéramos numa comunidade onde a esperança era mais normal do que a apatia ou o cepticismo, onde a palavra <<camarada>> significava, realmente, camaradagem e não era, como em muitos países, uma impostura. Respirámos o ar da igualdade. Tenho perfeita consciência de que é moda, agora, negar que o socialismo tenha alguma coisa a ver com a igualdade. Em todos os países do mundo, uma tribo colossal de escrivinhadores partidários e teoricozinhos untuosos anda toda a atarefada a <<provar>> que o socialismo mais não do que um capitalismo de Estado planeado, com a motivação do lucro intacta. Mas felizmente também existe outra visão do socialismo absolutamente diferente. O que atrai os homens comuns para o socialismo e os leva a arriscar a pele por ele, a <<mística>> do socialismo, é a ideia da igualdade; para a imensa maioria das pessoas o socialismo significa uma sociedade sem classes, ou então não significa nada. E foi neste aspecto que os poucos meses passados na milícia foram valiosos para mim. E foram-no porque as milícias espanholas, enquanto duraram, constituíram uma espécie de microcosmo de uma sociedade sem classes. Nessa comunidade onde ninguém pensava na sua promoção própria, onde faltava tudo, mas não existiam privilégios nem bajulações, tivemos, talvez, uma amostra rudimentar de como poderiam ser as fases preliminares do socialismo. E, no fim de contas, em vez de me sentir decepcionado ,senti-me profundamente atraído.
George Orwell em Homenagem à Catalunha
ainda bem que existe a lei para ser justa e iqualitária com todos
Ao longo das décadas, as indústrias criativas têm-se distinguido pela feroz oposição à inovação nos seus campos, muitas vezes perseguida e amiúde censurada. Seja tecnológica, de hábitos de consumo, até de mera modernização instrumental, a inovação é sistematicamente reputada de um perigo, colada ao inimigo imaginário do momento (do socialismo aos piratas) e previamente responsabilizada pelo fim do mundo que dela vai inevitavelmente decorrer. O facto de nenhum cataclismo ter alguma vez ocorrido é irrelevante; não há história nem memória.
http://pauloquerido.pt/politica/copia-direitos-de-autor-e-lagrimas-de-crocodilo-das-industrias-culturais-a-cancao-do-bandido/
Isto é simplesmente, pornográfico. É uma enorme carga burocrática e financeira que destrói um imenso valor à economia, para que milhões de euros – muitos milhões – todos os anos mudem de mãos, de toda a sociedade para um grupo rentista que pretende enriquecer sem causa própria.
Esta lei é um insulto à inteligência de todos. Quem compra um disco rígido, ou uma impressora poderá, eventualmente, utilizar o artigo adquirido para cópias ilegais. Logo, tem que pagar. Se o crime pode ser cometido, a pena é aplicada por antecipação.
Somos todos criminosos, mesmo com prova em contrário.
http://blasfemias.net/2012/01/08/pena-antecipada-sobre-crime-potencial/
Já muita tinta digital foi gasta a explicar a irracionalidade desta proposta, especialmente sobre o ponto de vista do aumento absurdo dos custos para o consumidor final, pelo que não vou detalhar muito mais sobre isso (podem e devem ler mais aqui, aqui, aqui, aqui e aqui). Deixo apenas um exemplo: se eu comprar um disco rígido de 2TB em Portugal, verei o seu custo aumentar 50% relativamente aos preços de hoje. Esta “compensação” irá directamente para os cofres da Sociedade Portuguesa de Autores (que tem um buraquinho de €6.5M para resolver, diga-se), mesmo que eu use o disco rígido para armazenar apenas as minhas fotos pessoais do ano que passou.
http://pensoblogoexisto.posterous.com/projecto-lei-118xii-reductio-ad-absurdum-ensa
Ora, eu nada tenho contra a remuneração das pessoas pelo seu trabalho, muito pelo contrário, tenho tudo a favor, e evidentemente, os artistas não são excepção a esta regra. Portanto, que fique claro, que eu, enquanto consumidora, sou toda a favor da remuneração do trabalho artístico que venha a consumir. Não sou a favor de remunerar trabalho artístico, em regime de pré-pagamento, que, talvez, um dia, quem sabe, eu venha a consumir, mas que, pelo sim pelo não, passa para cá o guito e mais nada.
http://jonasnuts.com/423564.html
Eu gostava era de ouvir a opinião dos autores e dos artistas. Porque é que eles estão calados? Será que eles se sentem mesmo representados pela SPA e pelos apoiantes desta proposta de lei?
http://arrifana.org/blog/2012/01/proposta-de-lei-118-notas-avulso-1/
Given that I’m now at an average of 5GB of photos and movies of my kids a month and that I’ve recently invested in a NAS and a set of external disks to make sure all our data (i.e., our photos and videos, our laptop backups, etc.) is safe on at least two other physical locations, I’m more than slightly annoyed at the whole thing as a matter of principle.
http://the.taoofmac.com/space/blog/2012/01/09/0108#on-the-portuguese-private-copy-levy
Em Cultura Livre, Lawrence Lessig nos convida a rever a história do direito autoral, desde sua criação até sua simples adoção de forma universal nos dias de hoje. Citando casos que variam de experimentos técnicos dentro de grandes corporações aos primeiros dias da aviação, o professor de direito na Stanford Law School mostra como as empresas multinacionais usaram de artifícios legais e tecnológicos partindo do copyright para impedir o nascimento de obras de arte que, em outras épocas, foram consideradas obras-primas ou revolucionárias. Cultura Livre foi o estudo que deu origem ao projeto Creative Commons, ONG liderada por Lessig que visa rever os conceitos de direito autoral e copyright através de um conjunto de licenças.
http://tramauniversitario.uol.com.br/compartilhe/cultura_livre.jsp
querido 2011
2011 foi o ano em que, para além da angústia anteriormente experimentada mas mais dificilmente compreendida, a realidade sócio-económica entrou pela minha vida adentro e me confrontou, com mais crueldade e firmeza que nunca, com a injustiça dos mecanismos da sociedade moderna. Talvez pelas suas causas nefastas, cada vez mais presentes no meu quotidiano, talvez pela coincidência de em anos anteriores me ter fascinado cada vez mais pela a origem e o significado da Condição Humana, a necessidade de respostas foi o que mais regeu o meu ano de 2011. Neste contexto fui levado a envolver-me nalguns momentos que me deram a conhecer diferentes pessoas, cujo espírito se mantém exaltado pelos mesmos motivos. Este foi o ano em que participei na chamada Acampada do Rossio. Me entusiasmei, me entediei e me desiludi. Foi o ano em que vi a Avenida da Liberdade cheia por diversas vezes e quis crer na existência de pessoas auto-determinadas e inconformadas e me voltei a desiludir quando a roda-viva das eleições me mostrou cabalmente que enquanto durar o circo político irá manter-se condenada a vida pública a uma espécie de beco sem saída. Foi o ano em que busquei por isso outras realidades. Fui encontra-las no livros, nas reuniões espontâneas ou organizadas. Com amigos e com desconhecidos. Com pessoas que percebem muito e com pessoas que se desunham para tentar perceber alguma coisa. Foi o ano em que encontrei no RDA pessoas das duas estirpes. Em que me tentei debruçar sobre as insurreições passadas, noutros países, noutros períodos históricos. Da comuna de Paris ao anarco-sindicalismo da Barcelona debaixo de guerra civil. Na incrível coincidência da nossa realidade com a realidade dos povos argentino ou grego. Foi o ano em que tentei decifrar mais um pouco da obra de Proudhon, em que me embrenhei apaixonadamente nas palavras de Kropotkin e Emma Goldman, em que sonhei com o espectador emancipado descrito por Rancière. Em que quis perceber porque é que a retórica da classe operária deposita tanta fé na Greve Geral e também os motivos pelos quais o seu impulso revolucionário se encontra circunscrito a uma existência meramente mitificada.
Mas também foi um ano de música. Foi o ano em que um seguidor meu, tão aproposito, falou das coincidências da minha música com a música de Gurdjieff e descobri assim a sua obra. Foi o ano em que me arrepiei com Valentin Silvestrov e o seu Requiem for Larissa ou me fascinei com a imensurabilidade da obra de Toru Takemitsu, em que tremi a ouvir as interpretações de Introitus e Am Rande des Abgrunds de Sofia Gubaidulina, durante um ciclo seu no CCB. Foi o ano em que vi o Schlippenbach numa sala apertada de paredes de tijolo no Barreiro, e pensei que estava dentro de um livro do Kerouac, não era verdade porque a asséptica lei anti-tabaco não ajuda ao romantismo da coisa. Foi o ano do Tilbury no Maria Matos e da primeira audição ao vivo do Prélude à l’après-midi d’un faune pela Orquestra Sinfónica da Casa da Música. O ano em que voltei a estar perto do sítio onde estive quando os Konono nº1 tocaram no Jardim Botânico, apenas desta vez estava mais perto do mar, e ao lado das Kalimbas havia agora mais guitarras eléctricas e três baterias e já não me lembro quantos músicos em palco. Mas sem dúvida que me recordei que a simplicidade é o âmago da questão. O ano de vibrar com música realmente vibrante em Lisboa dos incontornáveis Hernâni, Sousa (o outro), Ferrandini, Norberto, Sei Miguel, Rodrigo o Amado e o Pinheiro, Silva, Maranha, Mota, e mais uma porrada de outros nomes que agora não me ocorrem mas que sei que quando publicar este post me vou mutilar por não ter escrito. Foi o ano em que achei que dificilmente iria existir uma banda Pop mais perfeita que os Animal Collective e em que dei graças por ter provado uma porrada de cervejas novas e ter visto o Panda Bear na cidade fria de Bruxelas. E depois, calcorreei a mesma cidade fria a pé, por cerca de 50 minutos, por que já não havia Tram e fui teimoso demais para apanharmos um táxi. Foi o ano em que corri o país com o meu amigo Baltazar e Ricardo e nos rimos bastante, riu-se menos o Baltazar porque agora tem um puto pequeno e já não acha muita piada a ficar a pé até altas horas. Valoriza mais o seu sono tranquilo. Foi o ano em que vi, alguns, amigos a sair do país, e vi outros, menos, a voltar.
Foi o ano em que me desloquei mais vezes do que antes à cinemateca para tentar sorver a realidade perspectivada pelos grandes do cinema. Em que o discurso do personagem Albert Lory me alertou para a ideia peregrina de que “A sabotagem é a derradeira arma de um povo derrotado”. E, falei com tanta emoção deste filme que acabei por recebê-lo num DVD dentro de um saco de plástico mal embrulhado para que não mais me esqueça da sua importância. Foi ano em que busquei as imagens belas de Tarkosky, em que encontrei os meus 15 minutos de filme preferidos no início do Hiroshima Mon Amour, e o meu diálogo preferido no início do Le Mépris (totalement, tendrement, tragiquement), e em que me perdi em discussões inconsequentes sobre a duração do La Dolce Vita.
Sem dúvida que foi um ano em que comecei muita coisa e acabei tantas outras. Mas as coisas que acabei, sei que fazem parte do que me constitui e as coisas que tenho pela frente são o motivo pelo qual ainda vou acreditando que apesar de toda esta borrada que é a civilização moderna ainda vale a pena tentarmos fazer alguma coisa de útil e deixar um mínimo contributo para o grão de areia que é a nossa existência no universo.
Filed under books, cinema, music, politics | Comments (2)the only way to deal with an unfree world..

eu gostava era de ter vivido os 20′s nos anos 60 em nova iorque (parte 2)
“The word of course is one of the most powerful instruments of control as exercised by the newspaper and images as well, there are both words and images in newspapers… Now if you start cutting these up and rearranging them you are breaking down the control system. Fear and prejudice are always dictated but the control system just as the church built up prejudice against heretics; it wasn’t inherent in the population, it was dictated by the church which was in control at that time. This is something that threatens the position of the establishment of any establishment, and there for they will oppos it, wil condition people to fear and reject or ridicule it.”

Noite de lisboa com auto-retrato e sombra de ian curtis
Noite de lisboa com auto-retrato e sombra de ian curtis
filamentos de gelatinoso néon
invadem a catedral em celulóide do filme nocturno:
arquitectura de asas abóbadas de vento
pássaros de lixo
som
pálpebras de lodo sobre a boca do homem
que rasteja de engate em engate pelas avenidas da memória
e quando encontra a porta de um bar
mergulha no inferno
bebe furiosamente
o peito encostado ao zinco sujo
duma geração de subúrbio presentes
aqui os jovens, com a canga nos ombros
e o mundo poderia desabar dentro de 5 minutos
o copo estilhaça os vidros esfregados
nos ombros
no peito onde uma veia rebenta
para mostrar o radioso canto
depois dança contorce-se embriagado
sobre o rosto suado
com a ponta dos dedos espalha sangue e cuspo
construindo a derradeira máscara
cai para dentro do seu próprio labirinto
como se a verticalidade do corpo fosse um veneno
domina-o um estertor
uma corda invisível ata-lhe a voz
não se moverá mais
apesar de nunca ter avistado os órgãos profundos do corpo
sabe que também eles se calaram para sempre
a noite é imensa e já não tem ruídos
a morte vem dos pés sobe à cabeça
alastra ferozmente
mas a sua inquietante brancura só é perceptível
na súbita erecção do enforcado
Al Berto
Filed under books | Tags: al berto | Comment (0)as leis dos homens
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Creonte
(…) Fala, agora, por tua vez; mas fala sem demora! Sabias que, por uma proclamção, eu havia proibido o que fizeste?
Antígona
Sim, eu sabia! Por acaso poderia ignorar, se era uma coisa pública?
Creonte
E apesar disso, tiveste a audácia de desobedecer a essa determinação?
Antígona
Sim, porque não foi Júpiter que a promulgou; e a Justiça, a deusa que habita com as divindades subterrâneas jamais estabeleceu tal decreto entre os humanos; nem eu creio que teu édito tenha força bastante para conferir a um mortal o poder de infringir as leis divinas, que nunca foram escritas mas são irrevogáveis; não existem a partir de ontem, ou de hoje; são eternas, sim! e ninguém sabe desde quando vigoram! – Tais decretos, eu, que não temo o poder de homem algum, posso viloar sem que por isso me venham a punir os deuses! Que vou morrer, eu bem sei; é inevitável; e morreria mesmo sem a tua proclamação. E, se morrer antes do meu tempo, isso será, para mim, uma vantagem, devo dizê-lo! Quem vive, como eu, no meio de tão lutuosas desgraças, que perde com a morte? Assim, a sorte que me reservas é um mal que não se deve levar em conta; muito mais grave teria sido admitir que o filho de minha mãe jazesse sem sepultura; tudo o mais me é indiferente! Se te parece que cometi um ato de demência, talvez mais louco seja quem me acusa de loucura!
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em Antígona de Sófocles
Filed under books | Tags: antígona, sófocles | Comment (0)Falta-me a concordância das palavras com o momento dos meus estados
Falta-me a concordância das palavras com o momento dos meus estados.
<<Mas isso é normal, mas a toda a gente faltam as palavras, mas você é muito difícil para consigo próprio, mas ao escutá-lo não o parece, mas exprime-se perfeitamente em francês, mas você dá demasiada importância às palavras>>.
Sois uns imbecis, desde o inteligente ao medíocre, desde o perspicaz até ao grosseiro, sois uns imbecis, quero dizer, sois uns cães, quero dizer, ladrais para fora, obstinais-vos a não compreender. EU conheço-me porque me assisto, assisto a Antonin Artaud.
- Tu conheces-te, mas nós vemos-te, vemos bem o que fazes.
- Sim, mas não vêem o meu pensamento.
Em cada um dos estádios da minha mecânica pensante, há buracos, paragens. Não quero dizer, entendam-me bem, no tempo, refiro-me a uma certa forma de espaço (eu compreendo-me); não falo de um pensamento longitudinal, um pensamento em duração de pensamentos, falo de UM pensamento, um só, e um pensamento INTERIOR; mas não me refiro a um pensamento de Pascal, um pensamento de filósofo, refiro-me à fixação contornada, a esclerose de um certo estado. Apanhem lá essa!
Considero-me pormenorizadamente. Ponho o dedo no ponto exacto da falha, do inconfessado deslize. Porque o espírito é mais rastejante que vós próprios, meus senhores, ele esconde-se como as serpentes, esconde-se até ao ponto de atentar contra as nossas línguas, quero dizer, até as deixar em suspenso.
Sou aquele que melhor sentiu a desordem assombrosa da sua língua nas suas relações com o pensamento. Sou aquele que melhor detectou o momento dos seus mais íntimos, dos seus mais insuspeitáveis deslizes. Perco-me no meu pensamento como num sonhos, como num súbito regresso ao pensamento. Sou aquele que conhece os recantos da perda.
Antonin Artaud em “O pesa-nervos”
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