“A Utopia” II
“Quando me entrego a tais pensamentos, presto inteiramente justiça a Platão e já não me admiro de que ele se tenha recusado a fazer leis para aqueles povos que não aceitam a comunidade dos bens. Esse grande génio previra facilmente que a única maneira de organizar a felicidade pública era a aplicação do princípio da igualdade. Ora a igualdade é , segundo penso, impssível num Estado onde a posse é solitária e absoluta; pois cada um aí se arroga diversos títulos e direitos para chamar a si tudo quenato pode; e a riqeuza nacional, por maior que seja, acaba por cair nas mãos de um pequeno número de indivíduos que só deixam aos outros indigência e miséria.
Muitas vezes até acontece que a sorte do rico devia caber ao pobre. Não há ricos avaoros, imorais e inútieis? Pobres simples e modestos, cuja indústria e trabalho aproveitam ao Estado, sem vantagem para eles próprios?
Eis o que invencivelmente me convence de que a única maneira de distribuir os bens com equanimidade e justiça, instituindo a felicidade do género humano, é a abolição da propriedade. Enquanto direito de propriedade for o fundamento do edifício social, a classe mais numerosa e mais estimável só terá, para partilhar, miséria, tormentos e desespero. ”
Thomas More
Filed under books | Comment (0)“a utopia”
“Se não é possível arrancar de uma só vez pela raízes máximas perversas nem tão-pouco abolir os costumes imorais, isso não é razão para abandonar a coisa pública. O piloto não deserta do seu navio quando surge a tempestade, pelo facto de não poder dominar o vento.
(…)
Existe cobardia ou infâmia em calar as verdades que condenam a perversidade humana, com o pretexto de que elas serão motivo de irrisão e consideradas novidades absurdas ou impraticáveis quimeras. Dever-se-ia, em tal caso, lançar um véu sobre o Evangelho e dissimular aos cristãos a doutrina de Jesus. Mas Jesus proibiu aos seus apóstolos o silêncio e o mistério. Repetiu-lhes muitas vezes: O que eu vos digo em voz baixa e ao ouvido, pregai-o dos telhados em alta voz e sem disfarce. Ora, a moral de Cristo é muito mais oposta aos costumes deste mundo do que todos os nossos discursos.”
Thomas More
Filed under books | Tags: Thomas More | Comment (0)Os Dilúvios de Outono
As enchentes de outono vieram. Milhares de torrentes bravias desaguaram furiosamente no Rio Amarelo. O leito do rio se encheu e inundou as margens a ponto de, olhando-o, não ser possível distinguir, do outro lado, um boi de um cavalo. Então, o Deus Fluvial sorriu, maravilhado, ao ver que toda a beleza do mundo caíra sob sua proteção. Navegou rio abaixo, até que foi para o Oceano. Ali, olhou sobre as ondas, para o vazio horizonte no leste, e a sua face desfez-se. Olhando para o longínquo horizonte recobrou os sentidos e murmurou ao Deus do Oceano: “Bem, o provérbio está certo. Aquele que possui cem idéias, acha que sabe mais que ninguém. Tal pessoa sou eu. Somente agora compreendo o que significa a EXPANSÂO!”
O Deus do Oceano replicou:
“Pode você falar do mar
A um sapo dentro do poço?
Pode falar sobre o gelo
Aos louva-a-Deus?
Pode falar sobre a Vida
A um doutor em filosofia?
De todas as águas do mundo
O Oceano é a maior.
Todos os rios nele deságuam
Noite e dia;
Nunca está cheio.
Devolve as águas
Noite e dia.
Nunca se esvazia.
Nas secas
Não baixa.
Nas cheias
Não se eleva.
Maior que todas as outras águas!
Não é possível dizer
O quanto é maior!
Mas orgulho-me dele?
O que sou sob o céu?
O que sou sem Yang e Yin?
Comparado com o céu
Sou uma pequena rocha,
Um carvalho retorcido
Na montanha:
Devo agir porventura
Como se fosse algo?”
De todos os seres existentes (e os há aos milhões), o homem é apenas um. Dentre os milhões de homens que vivem na terra, o povo civilizado que vive da agricultura é apenas uma pequena proporção. Menor ainda é a quantidade dos que, homens de escritório, ou de fortuna, viajam de carruagem ou de barco. E, destes todos, um homem na carruagem nada mais é do que a ponta do fio de cabelo no flanco de um cavalo. Por que, então, toda esta agitação acerca de grandes homens e de grandes empregos? Por que todas as discussões dos eruditos? Por que todas as controvérsias dos políticos?
Não há limites fixos,
O tempo não permanece imóvel.
Nada dura,
Nada é final.
Você não pode segurar
O fim ou o princípio.
O sábio vê o próximo e o distante
Como se fosse idênticos,
Ele não despreza o pequeno
Nem valoriza o grande:
Onde todos os padrões diferem,
Como poderá você comprar?
Com um olhar
Ele se apodera do passado e do presente,
Sem tristeza pelo passado
Nem impaciência pelo presente.
Tudo está em movimento.
Tem experiência
Da plenitude e do vazio.
Não se rejubila no sucesso
Nem lamenta o insucesso
O jogo nunca está terminado.
O nascimento e a morte são iguais.
Os termos nunca são finais.
Chuang Tzu
Filed under books | Tags: chuang tzu | Comment (0)ideologias e política
“O Consumismo, por sua vez, suprimiu a crença nas ideologias, reduzidas ao estado de mercadorias nos intermutáveis expositores onde são exibidas. A política saldou os seus projectos de sociedade, aliás pouco convincentes, aplicando-se a satisfazer o hedonismo da sua clientela. Ao clarim do empenhamento e do sacrifício militantes substituiu-se o altifalante da venda promocional.
Os princípios do marketing só deixaram ao homem político uma ambição, a de ser comprado. A vontade de poder, que ontem lhe era prescrita pela actividade de se impor ao povo e de o governar, foi enfraquecendo no ridículo de exibições publicitárias sobretudo destinadas a provar que ele é consumível, e sem perigo.
Homem de palha ou caixeiro-viajante da acumulação financeira internacional, o político, num crescente mal-estar reveza a informação que circula, num delírio autístico, à velocidade do dinheiro enlouquecido. Mas como se faria ele ouvir, dispondo cada vez menos de palavras e cada vez mais de números? o que ganha na estima dos que nele mandam, perde-o em clientela. Deste modo se vê induzido a tornar-se em breve um homem de negócios.”
Raoul Vaneigem
Filed under books | Tags: raoul vaneigem | Comment (0)sobre o trabalho
“O trabalho foi aquilo que o homem achou de melhor para nada fazer da sua vida. Mecanizou, quando se tratava de inventar uma constante vivacidade. Privilegiou a espécie à custa do indivíduo, como se fosse preciso, para perpetuar o género humano, uma pessoa renunciar à fruição de si mesma e do mundo produzindo a sua própria desumanidade.
O estado planetário de ruína, isto a que conduziu a transformação da natureza numa matéria morta, mereceria ilustrar, nos futuros museus da barbárie arcaica, a salutar advertência: <<Aprendam e criar, nunca trabalhem!>>”
Raoul Vaneigem
Filed under books | Tags: raoul vaneigem | Comment (0)O Autor Como Produtor
“Estamos perante o facto – do qual os últimos dez anos na Alemanha deram abundantes provas – de que o aparelho de produção e publicação burguês é capaz de assimilar, e até propagar, quantidades surpreendentes de temas revolucionários, sem pôr seriamente em causa a sua própria existência e a da classe que o possui.
(…)
Para tornar o assunto mais claro, ponho em primeiro plano a forma fotográfica da reportagem. O que para ela for válido poderá também aplicar-se à sua forma literária. Ambas as formas devem o seu desenvolvimento extraordinário às técnicas da publicação: a rádio e a imprensa ilustrada. Lembremo-nos do Dadaísmo. A força revolucionária do Dadaísmo consiste em pôr à prova a autenticidade da arte. Compunham-se naturezas mortas com bilhetes, carrinhos de linhas, beatas de cigarro, ligados a elementos pictóricos. Enquadrava-se tudo numa moldura. E apresentavam-se assim as obras ao publico, dizendo: “Vejam, a vossa moldura rompe os limites do tempo; a mais minúscula parcela autêntica da vida quotidiana diz mais do que a pintura.” Assim como a impressão digital sangrenta de um assassino na página de um livro diz mais do que o texto. Destes conteúdos muito foi aproveitado pela fotomontagem. Basta pensar-se no trabalhos de John Heartfield, cuja técnica fez da capa do livro um instrumento político. Mas agora continuem a seguir o caminho da fotografia. O que é que vêem? Ela torna-se cada vez mais diferenciada, cada vez mais moderna, e o resultado é que não e capaz de fotografar nenhum bairro miserável, nenhum monte de lixo, sem o transfigurar. Para não falar já do facto de que, perante uma barragem ou uma fábrica de cabos eléctricos, ela seria incapaz de dizer outra coisa que não fosse: o mundo é belo. Ora, o Mundo é Belo é o título de um conhecido livro de fotografias de Renger-Partsch, onde vemos a fotografia da Nova Objectividade no seu apogeu. Ela conseguiu, de facto, fazer até da miséria um objecto de prazer, captando-a e tratando-a de acordo com o perfeccionismo da época. Na verdade, se faz parte da função económica da fotografia levar até às massas conteúdos que anteriormente estava excluídos do seu consumo – a Primavera, pessoas importantes, países desconhecidos – tratando-os ao gosto da moda, uma das suas funções políticas é a de renovar o mundo tal como ele é, a partir de dentro – por outras palavras: ao gosto da moda.
Temos aqui um exemplo flagrante do que significa fornecer o aparelho de produção sem o transformar.
(…)
Só a superação das competências que, no processo de produção intelectual e de acordo com a concepção burguesa, constituem a sua ordem, torna essa produção politicamente útil; e são, mais precisamente, as barreiras de competência entre as duas forças produtivas, exigidas para as separar, que têm de ser destruídas conjuntamente.
(…)
Gostaria de acrescentar muito brevemente uma frase sobre o músico que nos vem de Eisler: << Também a evolução da música, tanto na produção como na reprodução, temos de aprender a reconhecer um processo de racionalização cada vez mais generalizado… O disco, o filme sonoro, as juke-boxes, podem divulgar produtos musicais de elevada qualidade… como mercadorias enlatadas. A consequência deste processo de nacionalização é o facto de a reprodução da m+usica se restringir a grupos de especialistas cada vez mais pequenos, mas também mais qualificados. A crise do concerto é a crise de uma forma de produção antiquada, ultrapassada por novas invenções técnicas.>> Tratar-se-ia então de transformar a função da forma do concerto, preenchendo duas condições: suprimir em primeiro lugar a oposição entre os executantes e ouvinte e, em segundo lugar, a oposição entre a t+técnica e os conteúdos. Sobre isto faz Eisler a seguinte afirmação esclarecedora: <<Temos de ter cuidado em não sobrestimar a musica de orquestra, considerando-a a única grande forma de arte. A música sem palavras alcançou a sua grande importância e a sua expansão plena apenas no capitalismo>>. Ou seja: a tarefa de transformar o concerto não é possível sem a colaboração da palavra. Só desta colaboração, como esclarece Eisler, pode resultar a transformação de um concerto num meeting político. Que uma transformação destas representa realmente um ponto máximo da técnica musical e literária, foi o que demonstraram Brecht e Eisler com a peça didáctica “A Decisão.”
Walter Benjamin
Filed under books | Tags: Walter Benjamin | Comment (0)comprei hoje na trama

http://www.angelus-novus.com/livros/detalhe.php?id=168
Para levar na minha próxima viagem europa fora, claro que a Catarina gozou cmg..
Filed under books | Comment (1)Adorno – Teoria Estética
“A arte procura imitar uma expressão, que não incluiria intenção humana. Esta é apenas o seu veículo. Quanto mais perfeita uma obra de arte, tanto mais as intenções dela se ausentam. A natureza, indirectamente o conteúdo de verdade da arte, elabora imediatamente o seu contrário. Se a linguagem da natu-reza é muda, a arte aspira a fazer falar o silêncio, exposta ao insucesso pela contradição insuperável entre esta idéia, que impõe o esforço desesperado, e aquela,, a que se aplica o esforço, de um não-intencio-nal puro e simples.”
Filed under books | Comment (0)“a propriedade é um roubo”
“Destutt de Tracy confunde, sob uma expressão comum, os bens exteriores da natureza e da arte e as faculdades do homem, chamando propriedades a uns e outros; e é por este equivoco que espera estabelecer o direito de propriedade de uma maneira inalterável. Mas de todas essas propriedades umas são Inatas, como a memória. a imaginação, a força. a beleza outras adquiridas como os campos, as águas, as florestas. Na natureza os homens mais hábeis e fortes, quer dizer, favorecidos quanto a propriedades inatas, têm mais possibilidades de obter o exclusivo das propriedades adquiridas: ora foi para prevenir essa invasão e a guerra que se aproximava que se inventou a balança. uma justiça, e se fizeram convenções tácitas ou formais: foi portanto para corrigir, tanto quanto possível, a desigualdade das propriedades inatas pela igualdade das propriedades adquiridas. Enquanto a partilha não for igual os comparticipantes conservam-se inimigos e as convenções têm que recomeçar. Assim, de um lado, estranheza, desigualdade, antagonismo, guerra, pilhagem, massacre; do outro, sociedade, igualdade, fraternidade, paz e amor: escolhamos.”
Proudhon
Filed under books | Comment (0)The culpability of man. – Exposition of the myth of the fall.
There exists a law, older than our liberty, promulgated from the beginning of the world, completed by Jesus Christ, preached and certified by apostles, martyrs, confessors, and virgins, graven on the heart of man, and superior to all metaphysics: it is LOVE. Love thy neighbor as thyself, Jesus Christ tells us, after Moses. That is the whole of it. Love thy neighbor as thyself, and society will be perfect; love thy neighbor as thyself, and all distinctions of prince and shepherd, of rich and poor, of learned and ignorant, disappear, all clashing of human interests ceases. Love thy neighbor as thyself, and happiness with industry, without care for the future, shall fill thy days. To fulfil this law and make himself happy man needs only to follow the inclination of his heart and listen to the voice of his sympathies. He resists; he does more: not content wtih {sic} preferring himself to his neighbor, he labors constantly to destroy his neighbor; after having betrayed love through egoism, he overturns it by injustice.
Man, I say, faithless to the law of charity, has, of himself and without any necessity, made the contradictions of society so many instruments of harm; through his egoism civilization has become a war of surprises and ambushes; he lies, he steals, he murders, when not compelled to do so, without provocation, without excuse. In short, he does evil with all the characteristics of a nature deliberately maleficent, and all the more wicked because, when it so wishes, it knows how to do good gratuitously also and is capable of self- sacrifice; wherefore it has been said of it, with as much reason as depth: Homo homini lupus, vel deus.Not to unduly extend the subject, and especially in order to avoid prejudging the questions that I shall have to consider, I limit myself to the economic facts already analyzed. With the fact that the division of labor is by nature, pending the attainment of a synthetic organization, an irresistible cause of physical, moral, and mental inequality among men neither society nor conscience have anything to do. That is a fact of necessity, of which the rich man is as innocent as the parcellaire workman, consigned by his position to all sorts of poverty.
(…)
The theologians have given the name concupiscence or concupiscible appetite to the passionate greed for sensual things, the effect, according to them, of original sin. I trouble myself little, for the present, as to the nature of the original sin; I simply observe that the concupiscible appetite of the theologians is no other than that need of luxury pointed out by the Academy of Moral Sciences as the ruling motive of our epoch. Now, the theory of proportionality of values demonstrates that luxury is naturally measured by production; that every consumption in advance is recovered by an equivalent later privation; and that the exaggeration of luxury in a society necessarily has an increase of misery as its correlative. Now, were man to sacrifice his personal welfare for luxurious and advance enjoyments, perhaps I should accuse him only of imprudence; but, when he injures the welfare of his neighbor, — a welfare which he should regard as inviolable, both from charity and on the ground of justice, — I say then that man is wicked, inexcusably wicked.
When God, according to Bossuet, formed the bowels of man, he originally placed goodness there. Thus love is our first law; the prescriptions of pure reason, as well as the promptings of the senses, take second and third rank only. Such is the hierarchy of our faculties, — a principle of love forming the foundation of our conscience and served by an intelligence and organs. Hence of two things one: either the man who violates charity to obey his cupidity is guilty; or else, if this psychology is false, and the need of luxury in man must hold a place beside charity and reason, man is a disorderly animal, utterly wicked, and the most execrable of beings.
(…)
To the antagonism of society, you always say; to the state of separation, isolation, hostility to his fellows, in which man has hitherto lived; in a word, to that alienation of his heart which has led him to mistake enjoyment for love, property for possession, pain for labor, intoxication for joy; to that warped conscience, in short, which remorse has not ceased to pursue under the name of original sin. When man, reconciled with himself, shall cease to look upon his neighbor and nature as hostile powers, then will he love and produce simply by the spontaneity of his energy; then it will be his passion to give, as it is today to acquire; and then will he seek in labor and devotion his only happiness, his supreme delight. Then, love becoming really and indivisibly the law of man, justice will thereafter be but an empty name, painful souvenir of a period of violence and tears.
(…)
Therefore the only question left to decide is whether it depends upon man, notwithstanding the contradictions which the progressive emission of his ideas multiplies around him, to give more or less scope to the potentialities placed under his control, or, as the moralists say, to his passions; in other words, whether, like Hercules of old, he can conquer the animality which besets him, the infernal legion which seems ever ready to devour him. Now, the universal consent of peoples bears witness — and we have shown it in the third and fourth chapters — that man, all his animal impulses set aside, is summed up in intelligence and liberty, — that is, first, a faculty of appreciation and choice, and, second, a power of action indifferently applicable to good and evil. We have shown further that these two faculties, which exercise a
necessary influence over each other, are susceptible of indefinite development and improvement.
Social destiny, the solution of the human enigma, is found, then, in these words: EDUCATION, PROGRESS.
The education of liberty, the taming of our instincts, the enfranchisement or redemption of our soul, — this, then, as Lessing has proved, is the meaning of the Christian mystery. This education will last throughout our life and that of humanity: the contradictions of political economy may be solved; the essential contradiction of our being never will be. That is why the great teachers of humanity, Moses, Buddha, Jesus Christ, Zoroaster, were all apostles of expiation, living symbols of repentance. Man is by nature a sinner, -that is, not essentially ill-doing, but rather ill-done, — and it is his destiny to perpetually re-create his ideal in himself. That is what the greatest of painters, Raphael, felt profoundly, when he said that art consists in rendering things, not as nature made them, but as it should have made them.
Pierre-Joseph Proudhon